DA CONSISTÊNCIA
NA PRÁTICA ANALÍTICA
por
Luiz-Olyntho Telles da Silva
“Il faut être
léger comme l’oiseau,
et non comme la plume”.
PAUL VALÉRY
“Judith: Que se abra a última
porta que dá para
a noite.”
BÉLA BARTÓK,
O Castelo de Barba Azul.
Quando propomos o tema da consistência como suporte
da prática analítica, os que têm acompanhado os últimos
seminários de Lacan já sabem que a proposição
se apoia na topologia, especificamente, na topologia do nó borromeano.
Este esclarecimento
se justifica na medida em que o termo tem várias acepções:
num sentido amplo, no campo da ciência, a consistência é
entendida como a “propriedade de um conjunto de resultados de experiências
que satisfazem, dentro dos limites dos erros experimentais, as leis pertinentes
aos fenômenos a que se referem” . Depois, uma forte conotação,
da qual eu quase diria natural, nos faz entender no termo uma tendência
à solidez, à coerência. Na lógica clássica,
a consistência é uma propriedade de uma teoria não contraditória,
isto é, uma teoria na qual não existe fórmula que seja
teorema e, ao mesmo tempo, sua negação . Em termos carabinaléticos,
para usar uma expressão de Newton da Costa, a lógica clássica
chama consistente a um cálculo C quando, dada
uma fórmula bem formada, f, de C, não
é o caso que f e a negação de f
(
f) sejam ao mesmo tempo teoremas de C [C (
(f ^
f)]. Em expressões metafísicas somente o Absoluto e
o Incondicional são verdadeiramente consistentes. E mais, quando encontramos
o termo ligado por contraposição a existência, é
porque a consistência está comparada à essência.
Tomada a
consistência nestes termos, quero dizer nos termos de uma lógica
que não dá conta do funcionamento do inconsciente, pode-se
entender que alguns acreditem que seu propósito, o propósito
de uma análise, resulte em um incremento de conhecimento, de auto-conhecimento
inclusive (se me permitem o neologismo). Aí teríamos algo no
que pegar, onde pôr as mãos, algo sólido a justificar
nosso trabalho! Mas não, a psicanálise não promove nenhuma
teoria hipostática, não é nesta lógica clássica
que temos de nos apoiar; precisamos de uma lógica heterodoxa capaz
de derrogar a lógica clássica levando-nos a questionar, v.g.,
a relação entre os conceitos de consistência e completude.
Gödel, por esta via, chega a uma posição contrária
à lógica clássica, ao ponto de dizer que se o sistema
é completo, não é consistente, e se é consistente,
não é completo. É aí que Freud busca apoio para
reconhecer no resultado de uma análise outra coisa, pois ele não
é positivista.
No pós-escrito
ao caso do Joãozinho, Freud nos diz, junto da alegria por ter recebido
esta inesperada visita, na primavera de 1922, 13 anos após a publicação
do caso, ele nos diz, sem esconder uma certa surpresa, que “a análise
não tinha preservado os acontecimentos da amnésia, mas [pelo
contrário] tinha sido superada pela própria amnésia”.
– De modo que a análise não só não contribui com
um incremento de auto-conhecimento, como muito se acredita, insisto, mas,
pelo contrário, ajuda a esquecer! Se não acaba com os problemas,
pelo menos podemos pensar que diminui sua solidez, tornando mais leve o fardo
da existência. O fardo da existência! De modo que a existência,
esta sim, parece consistir em um sólido pesado, difícil muitas
vezes de suportar. E de onde vem este peso?
A pergunta
parece indicar uma direção: a da realidade! Esta realidade,
contudo – e aqui parece bem que se lembre a Bachelard quando ele diz que
o conhecimento é sempre a reforma de uma ilusão – também
não é a realidade dicionarizada, que diz daquilo que existe
de fato. Não! A realidade que importa é a fantasmática,
sempre particular e corolário necessário da inexistência
da relação sexual. E o fantasma, o que ele coloca em evidência,
é um desejo. No seminário R.S.I., Lacan nos diz que o desejo
do homem é o inferno. O homem aspira ao pior!
Pois bem,
se a cada conceito importante, no nosso campo, lhe damos uma conotação
particular, que faremos com o inferno? Lembram do chiste? “Se todos os bons
vão para o céu, que chatice! Prefiro o inferno!” – Aí
está: o inferno é o lugar do gozo. Freud sempre soube disto.
Foi por absoluta impossibilidade de outra escolha, uma vez que as uvas da
videira ideal estarão sempre verdes, que optou pela análise
do inferno, do acheronta.
Para Lacan,
a consistência é o que possibilita o enodamento dos registros
do real, do simbólico e do imaginário, e isto das mais diversas
maneiras. Podemos, por exemplo, enodá-los assim:
Retificando
um dos anéis, no caso o do Real, veremos que ele funciona como uma
espécie de divisor de águas entre o sentido e os gozos. Enquanto
o sentido fica colocado em uma relação de exterioridade ao
Real, na interseção do Simbólico com o Imaginário,
os gozos (tanto o gozo do Outro [JA], como o gozo fálico [JF], incluído o plus-de-gozar [a],
ficam subscritos ao Real. Aí é que está o inferos,
o inferno!
E como é
que se pode adentrá-lo?
Ao que tudo
indica, de duas maneiras: a primeira, bem conhecida, poderia ser chamada,
ao estilo cristão, de caída, ou, se quisermos, ao estilo grego,
de arrebatamento. Os pobres cristãos estão sempre correndo
o risco de cair em tentação. Para os cristãos não
é o homem que aspira ao inferos, ao contrário,
o homem não é agente, mas sim vítima! Entre os gregos
também aparece este caráter de vítima. O Hades arrebata
suas vítimas.
A outra
maneira de adentrar ao inferno, é a que se faz por amor. Aconteceu
com Orfeu! Inconsolável com a perda de Eurídice, Orfeu desce
aos infernos em busca da esposa. Leva como instrumento sua lira da qual tira
sons tão encantadores que mesmo as Fúrias vertem lágrimas,
a roda de Ixion pára de girar, a rocha de Sísifo fica em equilíbrio,
Tântalo esquece sua fome e sua sede, as Danaides param de encher seu
tonel sem fundo e Perséfone e Hades concedem restituir Eurídice
a este amoroso marido, mas com uma condição: enquanto ele a
leva para fora, precedendo-a no caminho, enquanto não alcança
a luz do dia, ele não pode olhar para trás para vê-la.
A falta de confiança na força de seu instrumento o trai e ele
se vira para ver se não foi enganado, e foi! Mas não por Perséfone
nem por Hades, enganou-se consigo mesmo e Eurídice morre pela segunda
vez.
A metáfora
parece interessante, ainda que seja para mostrar o fracasso do desejo do
analista: Eurídice é arrebatada pelo inferno porque, perseguida
por Aristeu que dela se apaixonara, foge, e na fuga pisa em uma cobra – quer
dizer, provoca uma cobra – que a morde no pé e ela morre. Lembremos
porém que Eurídice estava recém-casada com Orfeu e mesmo
naquela época não creio que a sedução fosse bem
aceita nestas condições. De modo que o trabalho de Orfeu está
guiado mais por seu próprio desejo que pelo desejo do analista; Orfeu
estava envolvido com Eurídice e queria salvá-la. Seu trabalho
é capaz de interromper momentaneamente a repetição alienante
constituinte do gozo, mas não o ajuda na hora em que mais precisa.
Penso que se poderia dizer que o que leva Orfeu a fracassar é o fato
de não se dar conta que também ele está no inferno e,
portanto, sujeito às suas leis, leis que dizem: “Não olhe para
trás, esqueça!” É como se este grande músico que
foi Orfeu não tivesse chegado a conhecer os versos de John Lenon e
Paul McCartney:
And when
the broken hearted people
Living in the world
agree,
There will be an
answer, let it be.
O trabalho
de Freud, de certo modo, pode dar lugar a um mal entendido deste tipo, uma
vez que elide os registros do real, do simbólico e do imaginário,
atando-os todos com o seu Nome do Pai, que é o que ele chama de realidade
psíquica, realidade religiosa mesmo, diz Lacan. Esta elisão
pode propiciar o não reconhecimento, por exemplo, da relação
da existência com a consistência, pode mesmo possibilitar que
se os entenda como contrapostos. A existência, diz Lacan, é de
sua natureza o que é ex-, o que gira em torno do consistente
mas faz intervalo, e neste intervalo tem n maneiras de se atar.
A existência,
que Lacan escreve ex-sistência, se define justamente
por relação a uma certa consistência, ou seja, esta característica
que possibilita aos aros de barbante estarem enodados os três sem estarem
enganchados um nos outros. No desenho acima, o aro do Simbólico está
por cima do aro do Imaginário, enquanto que o aro retificado do Real
está ainda por baixo do Imaginário, mas, por cima do Simbólico,
alfinetando o Simbólico no Imaginário. Só estão
enodados por terem no três seu número mínimo. Se Orfeu
queria resgatar o corpo de Eurídice, aprisionado por Hades, não
podia deixar de ter em consideração que a vida que ele queria
reaver, esta vida que é do registro do Real, depende do conceito de
morte. Poderíamos dizer que Eurídice morre para Orfeu quando
vira os olhos para Eristeu? – Deixo-lhes a pergunta...
Assim que,
para levar adiante o trabalho da análise, não se trata de incrementar,
implementar, incluir, aumentar enfim o campo de conhecimentos do analisante;
trata-se, sim, de analisar o que está. Para quê? Para, ao esburacar
o Real da ex-sistência, torná-la mais leve. E aqui se abre outra
vez a possibilidade do engano. Na busca da leveza muitos pensam que isto
se consegue através de técnicas leves e tratamentos brandos,
lights, softs como se diz hoje em dia.
E aí é que está o engano. O soft sem o
hard nada é! Onde? Podem estar certos de que
isto não é só linguagem de computador. Mas neste engano
também creio haver um núcleo de verdade. É preciso analisar
com cuidado para ver o que pode haver de verdade nesta busca do soft,
nesta busca pela leveza.
O que do
Real oprime, então, é este peso, esta dureza impenetrável,
e não nos esqueçamos que estamos falando do sujeito. E aqui
lhes coloco outra pergunta: reforçar o ego, como se diz, não
leva justamente a aumentar esta compacidade?
Encontrei
que Cellini, a certa altura de sua vida, dedicou-se a fazer algumas jóias
e, como vendiam muito, passou um certo tempo fazendo estas medalhas de ouro
para serem carregadas no pescoço, as quais traziam de um lado a efígie
do proprietário, e na coroa um dístico que dizia de suas qualidades.
Penso que é disto que se trata no reforço do ego: de levar
o sujeito a erigir uma estátua de si mesmo. No entanto, trata-se do
contrário: isto é o que se deve evitar, e a preocupação
de romper com esta compacidade não é de hoje.
Talvez pudéssemos
localizar em Lucrécio, na sua De rerum natura, um dos
primeiros movimentos do conhecimento em direção à dissolução
da compacidade do mundo: a verdadeira realidade da matéria, diz ele,
consiste em corpúsculos invisíveis. Lucrécio é
o poeta que nos diz que o vazio é tão concreto como os corpos
sólidos.
Em todo
o caso, a leveza que interessa é a que se obtém passando pelo
inferno, pelo território da morte, como disse em outro trabalho. O
risco é que por aí andam os monstros e, para enfrentá-los
– uma vez que Orfeu falhou – diria que inspirar-se em Perseu não está
nada mal. Interessante que é o mesmo Benvenuto Cellini que nos lega,
possivelmente, o mais conhecido “Perseu” da história das artes. E
é a Perseu que Calvino coloca no lugar de herói da leveza.
Perseu é
o único herói capaz de matar a terrível Górgona
Medusa, Medusa que já havia sido uma linda mulher. Lembram Aristóteles
quando diz que monstruosa mesmo é a visão da diferença
sexual? Pois é, os monstros têm a ver com isto! Mas, o que queria
destacar, são os instrumentos de que se utiliza Perseu e as conseqüências
de seus atos. Para isto, antes de mais nada, temos de deixar patente que Perseu
não está só; ele conta com a ajuda de Hermes e de Atenas,
que segura seu escudo de bronze polido, como um espelho, por cima da Medusa
para que Perseu possa guiar-se pela imagem refletida enquanto voa com as
sandálias aladas emprestadas das Ninfas, apoiado nos ventos e nas
nuvens, pois Perseu não pode olhar diretamente para a Medusa porque
seu olhar petrifica, transformando seus admiradores em estátua. Como
Orfeu, Perseu também não pode olhar! Mas enquanto Perseu de
certo modo sabe que a regra é para todos, Orfeu, acreditando-se uma
exceção, como se ele fosse o mito, pensa que a condição
é só para ele, e desconfia; infelizmente para ele, não
desconfia de que ele mesmo pudesse estar enganado e supõe o engano
no outro. Ademais, vale notar que o método para matar a Medusa lhe
é fornecido também por monstros: são as irmãs
das Górgonas, as Gréias, que detêm o segredo e o contam
a Perseu. Interessante que, enquanto eu procurava a grafia correta em Português
para “Gréias”, – o que aliás não encontrei em nenhum
dicionário contemporâneo a minha disposição
- encontrei em uma edição antiga do Lello Universal, embora
sem data, feita em Portugal, na cidade do Porto, com a grafia de “Grées”,
onde dizia que o verbete derivava do grego griai, que queria dizer ‘orelhas’.
Pois vejam: embora provavelmente se trate de um erro, uma vez que em grego
se diz Graiai e quer dizer ‘velhas’, não
deixa de ter interesse – afinal Freud incluiu os Irrtümer
entre as formações do inconsciente – não deixa de ter
interesse, repito, pensar que alguém já havia pensado terem
sido as ‘orelhas’ que ensinaram a Perseu o Método para acabar com
a Medusa, pois estas três irmãs aparecem na mitologia grega
praticamente apenas na história de Perseu. Em todo o caso, note-se
que as três irmãs dispunham de um único olho e de um
único dente que revezavam entre as três. Pois bem, depois da
leveza proporcionada pelas sandálias aladas, do sangue que jorra como
resultado da decapitação, nasce Pégaso, o cavalo alado
que com um coice faz nascer no monte Helicon uma fonte onde se abeberam as
Musas. Assim, a cada passo que nos adentramos neste mito, cada vez mais aparecem
os signos da leveza. Depois de decapitada, Perseu carrega consigo a cabeça
da Medusa, que ainda conserva os poderes, para enfrentar seus inimigos. As
outras duas Górgonas, quando tomam conhecimento da morte de sua irmã
Medusa, querem perseguir Perseu, mas é tarde! Perseu já se
ia levando os cascos de Hades que o tornavam invisível. De certo modo,
é como se Perseu tivesse virado a favor de sua empresa a impossibilidade
de ver. E isto porque Perseu, como Lucrécio, como Anaxágoras,
como Merleau Ponti, v.g., sabe que o invisível também
é operante. Ele carrega então a cabeça da Medusa dentro
do kibisis, mostrando-a apenas para aqueles que merecem como castigo
converter-se em estátuas de si mesmo, como é o caso do gigante
Atlas. Lembremos ainda que estas são aventuras africanas de Perseu,
aventuras no Continente Negro, como diria Freud.
Perseu parte
para a aventura apenas com a determinação de honrar sua palavra,
e as armas de que se utiliza são sempre sugeridas pelas circunstâncias
resultando no surgimento de mais vida. Calvino chama a atenção
para a delicadeza que se exige de um matador de monstros, descrevendo a cena
seguinte à libertação de Andrômeda por Perseu:
o herói quer lavar suas mãos após a luta, e para isto
tem que largar em algum lugar a cabeçorra da Górgona; então,
“para que a áspera areia não dane a cabeça de serpentina
cabeleira, ele molha o chão e cobre-o com uma capa de folhas, estende
por cima alguns raminhos nascidos embaixo da água, e neles pousa, com
a boca para baixo, a cabeça da Medusa”. Não se pode negar a
gentileza. Perseu não é um empedernido carrasco! Mas o surpreendente
é o que se segue: os raminhos marinhos em contato com a Medusa se
transformam em delicados corais, e para com eles se enfeitarem, as Ninfas
se aproximam colocando raminhos e algas junto da terrível cabeça.
Para concluir,
queria ver como se pode sair do inferno e, para isto, contrapor à
condição imposta a Orfeu a saída encontrada por Dante
Alighieri: para Orfeu a condição era não olhar para
trás enquanto não alcançasse a luz do dia. E vejam agora
como Dante descreve a saída do Inferno no última linha do Canto
XXXIV: E quindi uscimo a riveder le stele (E dali saímos
para rever as estrelas). Dante sai para a noite! Do real ao real, uma vez
que as estrelas que estão sempre aí são do Real o melhor
exemplo. Por mais elaboradas que façamos as coisas, estamos sempre
no imaginário, diz Lacan! Mas isto não será a condição
de estarmos também sempre no Real, e também no Simbólico?
Não será esta a importância da consistência na prática
analítica?
E agora,
se aceitam o convite...
Andiamo a riveder le
stele!
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