O CAÇADOR DE CONTOS
Luiz-Olyntho Telles da Silva
O conto-do-vigário é o mais antigo gênero de ficção que se conhece.
MACHADO DE ASSIS
A Semana, 31 de março de 1895.
Consegui com o amigo de um amigo uma Carte Blanche para visitar o Inferno da Biblioteca Pública Nacional. Tinha então todo o tempo do mundo e uma Bibliotecária solícita e conhecedora de tudo à minha disposição. Logo me acostumei ao seu funcionamento e me movimentava com bastante facilidade, bisbilhotando à vontade naquele mundo de pês: papéis, pergaminhos e papiros. Um verdadeiro tesouro ao alcance dos olhos de poucos. Raridades únicas e edições de divulgação proibida.
Foi aí que encontrei, em um papiro, um relato de Amenotep, parecendo mesmo uma confissão. Pasmo, não podia acreditar em meu achado! Verdade que meu conhecimento dos hieróglifos daquele período não era lá grande coisa, mas o modo como começava me parecia inconfundível: Eu, Amenotep, conto mais uma história vivida... Havia uma parte central, em cruz, bastante apagada, formada por dobras antigas e criminosas, as quais, embora o deixassem ilegível, não impediam entender o assunto em apreço: a introdução de um jovem na vida sexual.
Tomando todas as precauções, fotografei várias vezes o documento e fui examiná-lo com meu amigo, o Prof. Dr. P.C. que ele sim conhecia a escrita egípcia do Novo Império. Verificamos então que o papiro havia sido dobrado sim, mas em oito partes. Podia-se deduzir isso da largura dos sulcos produzidos pelas dobras - disse-me o Professor - e, o mais importante, estava faltando pelo menos a metade do documento. Estaria guardado em outro lugar, ou perdido.
Entre os documentos do Inferno não me foi possível encontrá-lo, e o passo seguinte foi revisar a obra de Gaston Maspéro, que há poucos anos havia reunido diversos contos egípcios, recolhidos diretamente das paredes de Luxor e considerados os mais antigos da civilização. Nada! Não havia aí nada parecido com esse relato, vívido como a história vivida.
Um menino, aos treze anos, sendo levado para as Sacerdotisas do Templo prepararem-no para a vida sexual. Seria a história do filho do Faraó Amenófis III, ou a do próprio Faraó? Seguindo os rituais, as Sacerdotisas o despem ficando admiradas com o já faraônico falo - uma dádiva de Osíris ao menino! Logo todas o beijam, em delicada cerimônia, até o falo responder a uma delas. A escolhida ocupar-se-á apenas dele daí por diante. Ele pode chamá-la pelo nome, Nefer Nefer, e é ela quem prepara para ele, depois de diversas provas e experimentos, um preservativo feito com fina e resistente tripa de carneiro, costurada de modo a não vazar. Ele precisa saber dos inconvenientes de engravidar outras mulheres que não sua esposa, o que não parecia fácil! E por que precisaria de uma esposa, já tendo Nefer Nefer aí? Um arrazoado incrível, ainda que incompleto, e resolvemos, o Prof. P.C. e eu, que era preciso comunicar ao Diretor da Biblioteca, e obter dele o direito de tradução e publicação.
Recebeu-me um vigário seu, com um ar decididamente clerical. Já tinha em mãos um documento para eu assinar, desistindo de tudo e prometendo esquecer o que tinha visto. Disse ainda estar autorizado a pagar-me um milhão por minha descoberta e meu silêncio. Isso mesmo, um Conto, um Conto de Réis.