Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva


DILÚCULO

 

Luiz-Olyntho Telles da Silva
2005



The glow-worm shows the matin to be near,
And ‘gins to pale his uneffectual fire
.[1]

SHAKESPEARE,
Hamlet, Ato I, Cena V.

 

Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

THIAGO DE MELLO



        Acordei zonza, com o ruído da campainha. Insistente e repetido demais para ser o despertador. A esta hora? Era o telefone. Tateando na escuridão do quarto, encontrei-o:

        - Alô. Disse eu um tanto temerosa pela hora, pela escuridão.

        - És tu, mãe?

        - Sim, meu filho, sou eu.

        - Mãe, eu só queria dizer que te amo. Te amo muito, mãe, e sempre vou te amar.

        - Obrigado, meu filho, mas a esta hora! Tu estás bem?

        - Não, mãe. Não estou.

        E em seguida, aquele som metálico do telefone sendo desligado. Eu com os olhos esbugalhados naquelas trevas, sem saber o que pensar, sem saber seu telefone nem onde estava morando aquele perdido.

        Só o silêncio, logo desfeito por um longínquo galo anunciando o amanhecer.



[1] Na tradução de Millôr Fernandes, ficou assim:

O vagalume começa a empalidecer sua luz noturna;
É que a alvorada o vence.


CONTOS
TEXTOS
PÁGINA PRINCIPAL
Escreva aqui seus comentários