Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva

DUELO

 Luiz-Olyntho Telles da Silva

 

Amicus certus in re incerta cernitur.1

CÍCERO
Da amizade

Ontem morreu aquele que talvez tenha sido meu melhor amigo. Há quarenta anos não nos falávamos. E antes disso, muito pouco.

Embora fossemos inimigos políticos, sempre nutri, lá no fundo, uma grande admiração por ele. Era o Chefe de Polícia e eu o Presidente do Partido; sim, do Partido que colocara o Getúlio no poder.

Ele se destacava por sua elegância de bacharel e seu posto lhe caía como suas roupas bem cortadas; muito não precisava dizer a seus subordinados, pois respondiam rapidamente a seus gestos discretos e nem reparávamos na confiante tranqüilidade na qual vivíamos. Mas era do PSD, motivo suficiente para nem sequer nos olharmos.

Contávamos, contudo, entre as autoridades de nosso pequeno município, noblesse a nos obrigar alguns encontros, todos difíceis, muito difíceis. E num comício, no qual nos desentendemos, desafiei-o para um duelo, um duelo à bala de revólver.

Fui eu, ou foi ele a promover o desafio? Na verdade não lembro! Devo ter sido eu, pois nunca o vi com uma arma na mão. Estava informado apenas de sua inseparável bengala dotada de um estoque, mas, enfim, na sua posição um revólver não lhe seria estranho. Quanto a mim, embora jamais portasse uma arma, quando atirava, de brincadeira, com os amigos, o revólver parecia um prolongamento de minha mão. Mas o importante é isto: esperei-o à hora marcada, e ele não compareceu! Passaram-se os dias, e nada de notícias. Tomei-o por covarde.

Tempos depois, foi promovido para a Delegacia da Capital, por bons serviços; seu poder aumentou, e utilizou-o para ajudar a todos os conterrâneos que o procuravam com alguma demanda.

Uma vez, eu mesmo escrevi-lhe um cartão pedindo ajuda para um subalterno da Prefeitura, ingênuo inocente metido em uma grande enrascada. E não deu outra, em pouco tempo estava tudo arranjado.

Comovido, resolvi agradecer-lhe pessoalmente e, de visita à Capital, apareci em seu gabinete sem marcar hora.

Para minha surpresa, seu secretário logo reconheceu meu nome no cartão e levantou-se num átimo para cumprimentar-me, fazendo de tudo para que me sentisse à vontade.

- O Capitão sempre fala no Senhor - dizia o secretário - do quanto lhe serviu de inspiração em sua vida. Uma lástima ele não estar aqui, pois quando souber de sua presença, vai sentir muito ter perdido a oportunidade de recebê-lo. Quando lembra de seu posto no interior, fala sempre de sua marcante integridade e coerência. Mas hoje, por coincidência, está participando de uma competição interna da Polícia, tiro de pistola, e ele sempre conquista o primeiro lugar.

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1 O amigo certo se reconhece numa situação incerta.


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