Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva



AS GAIVOTAS DE ULUÇINAR

Luiz-Olyntho Telles da Silva
2005


Eu tinha oito anos e voltava da casa de minha tia, nas proximidades de Alepo, onde passáramos a tarde brincando com nossas primas. Minha irmã mais velha pedalava, enquanto eu ia de carona, brincando com uma varinha.

Eu curtia o ruído da varinha batendo na vegetação  ao lado da estrada, e minha irmã não acreditou quando lhe apontei aquele homem no carro que passara, estranha mente dirigido por uma mulher loira: era nosso pai. Ela  tentou parar a bicicleta, mas seu movimento abrupto levou nós duas ao chão.

Enquanto limpávamos a poeira de nossos vestidinhos ainda vimos o carro, já longe, entrar por uma via secundária. Minha irmã quis espiar.

Logo ao passarmos as árvores, vimos o carro estacionado no gramado em frente de uma casa não muito grande, construída sobre colunas, e minha irmã, atinando com o que se passava, não descansou enquanto não foi chamar nossa mãe.

Viemos as três na camionete que mamãe usava para ir às compras.

Já em baixo da janela, minha irmã começou a gritar o nome de nosso pai. Entre um grito e outro dela, era eu a gritar. Parecíamos um par de gaivotas, como as que tínhamos visto no último verão, quando estivemos em Uluçinar. Era mesmo o nosso pai, e ele desceu as escadas correndo enquanto vestia a camisa. Embora eu não ouvisse nada do que ele dizia - depois das gaivotas já não escutei mais nada -, podia ver seu rosto vermelho e inflamado de tanto gritar enquanto nos fazia voltar correndo para a camionete.

Não sei como nossa mãe conseguiu dirigir com aqueles olhos baixos e cheios de lágrimas. Ela jamais falou disso com ninguém, que eu saiba, mas também nunca mais pude ver seu lindo sorriso!