HARPA DAVIDIS
Luiz-Olyntho Telles da Silva
2005-2006
Yo no creo en brujas
pero de que vuelan, vuelan.
DITADO POPULAR.
No horário combinado, estávamos todos lá. Os últimos a chegar foram o médico de nossa pequena cidade, padrinho de meu filho, e seu hóspede, um cirurgião da capital, jovem, muito seguro e já reconhecido, mas também um incrédulo Tomé. Nos encontramos na ante-sala quando olhávamos os relógios. Foi o tempo de cada um tomar, sem pressa, seu copo d’água já fluidificada por nosso anfitrião - espírita praticante e Juiz de Direito da Comarca. Em seguida passamos à sala dos trabalhos.
Os outros participantes regulares das reuniões eram uma Parteira, senhora por demais respeitada na comunidade, e o Gerente do Banco a quem todos, de um modo ou de outro, devíamos algum favor. Éramos seis sentados ao redor da mesa.
Como a obscuridade da sala era quase total - um requerimento para essas sessões de efeito físico - havia sido providenciada uma lâmpada com um dispositivo para piscar a intervalos, como um flash a nos possibilitar ver as coisas claramente de tempos em tempos. Na obscuridade, podíamos distinguir, somente como sombras, o vulto dos participantes e os pequenos objetos sobre a mesa: papéis, canetas e letras do alfabeto feitas em madeira. Havia uma profusão delas.
Mal nosso anfitrião abriu os trabalhos, com as recomendações de praxe, calma, paciência, concentração e a convicção de que estávamos na casa de Deus e sob sua proteção, houve já um certo alvoroço nos papéis. As folhas pareciam se mover, uma a uma, para frente de nosso incrédulo visitante, e aí começaram a bailar em torno de sua cabeça. Meu compadre quis tranqüilizar o colega, mas foi impedido pela voz firme de nosso anfitrião. Que ninguém se mexesse do lugar, pois estava tudo sob controle. O tremelico do amigo cedeu e os papéis pararam sua dança macabra, retornando incontinente à sua posição original. E aí foi a vez das letras começarem seu balé, quando fulgurou o primeiro flash e todos pudemos ver a frase formada:
WILLKOMMEN HERR DOKTOR
- Mas o que quer dizer isso? Perguntou o Diretor da sessão. E foi o tempo de uma caneta responder rascando sobre uma folha de papel: Pergunte a São Tomé. Ouvimos então a voz agora trôpega do jovem cirurgião dizendo: - Bem - vindo - Dou - tor! Mais tarde viemos a saber que ele era nascido na Alemanha e conhecedor da língua alemã. Um segundo flash mostrou-o lívido.Já nos reuníamos há algumas semanas, mas esta foi a primeira vez a se apresentarem os tais efeitos. Eu estava estupefata com tudo aquilo. Creio mesmo estivéssemos todos, e agora as canetas começavam sua dança sobre as folhas de papel, para logo voarem uma folha para frente de cada um de nós com uma mensagem particular. Pensei estar tudo terminado quando as letrinhas de madeira começaram a se movimentar, rapidamente, formando a frase:
ANTES DE IREM
UM PRESENTE
As letras então se dispersaram formando um círculo no meio do qual surgiu, do nada, uma concha marinha, ainda úmida e com seu molusco vivo. Em seguida as luzes se acenderam.Estávamos atônitos com aquilo. Todos queríamos pegar aquela maravilhosa concha que restara sobre a mesa. Só a identifiquei anos mais tarde, olhando casualmente um Guia de Moluscos da coleção de meu filho: tratava-se, sem dúvida, de uma Harpa Davidis, uma concha pouco comum, própria da região indopacífica, a qual costuma esconder-se no piso infralitoral. Mas naquele momento era apenas sua beleza, ainda úmida, a nos absorver, com seus gomos cor de areia escura alternados por estreitas faixas claras entrecortadas por estrias terrosas. Estávamos todos tão atentos, emudecidos pelo inusitado e quase esqueci a folha de papel suspensa entre meus dedos por este tempo todo.
Precisei sentar-me, pois me faltaram as pernas ao reconhecer a letra de meu pai. Jamais tomei conhecimento das mensagens dos outros bilhetes, mas aí ele se dirigia a mim, pessoalmente, chamando-me por meu apelido de criança. Ele havia morrido há pouco mais de um ano e me dizia estar bem, pedindo para rezar por ele.
Meu filho, tão cético como aquele cirurgião, nunca acreditou nessa história. Hoje, eu também não estou tão certa do modo como as coisas se passaram, mas na verdade ainda guardo a bendita carta.