Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva


LAMBDA

Luiz-Olyntho Telles da Silva
2005
Um círculo retificado tende ao infinito.
GIRARD DESARGUES.
Rascunho de um projeto para atingir as conseqüências
do encontro do Cone com um Plano

E a moça ria-se entre árvores ondulantes,
e era uma ondina saída de algum rio,
e seu vestido era de luz e de água.

CECÍLIA MEIRELES,
A moça pecadora apareceu-me de branco.


Eu já fizera diversas especialidades e minha ombreira ostentava orgulhosa as respectivas insígnias. Mas era tempo de conseguir mais uma para continuar o percurso.
 
Foi quando meu amigo me perguntou se eu já tinha a especialidade de Acampamento. Ele, então Guia de nossa tropa de Escoteiros, estava disposto a tentar essa difícil especialidade e me convidava para ser sua testemunha. Se eu quisesse, também poderia me colocar à prova e ele seria, por sua vez, minha testemunha. Verdade que eu era Chefe da Patrulha do Lobo há dois anos e fizera diversos acampamentos com toda a tropa e mesmo só com minha patrulha; tinha bastante experiência, mas ainda não estava convencido dessa suficiência. Talvez por isso a idéia não me ocorrera até então. De qualquer modo, uma coisa é carregar uma barraca nas costas dividida entre os três ou quatro que a ocuparão, e outra, carregá-la sozinho. Naquela época as barracas não eram deste nylon levezinho de hoje, e sim de uma lona verde, pesada; sobras do exército. E tinha também as panelas e toda a tralha necessária: cantil, talheres, mantimentos, bússula, etc. Mas enfim, por que não tentar?

Marcada a data, lá fomos nós, cada um carregando uma montanha. O trajeto no bolso já estava bem estudado, e o caminho não oferecia maiores dificuldades, embora nos fosse desconhecido - a primeira exigência do teste. Oito horas de caminhada, e chegamos, quase mortos, ao X que tínhamos escrito no mapa. Uma pequena península formada pela curva do rio, limite entre o campo onde criavam gado e uma mata espessa que o margeava por toda a extensão alcançada por nossos olhos. Uma linda paisagem naquele entardecer comprido de verão. Todas aquelas cores no céu com algumas reses ainda pastando silenciosas. Nada mais bucólico!

Barracas armadas, cada coisa no seu lugar, o crepitar do fogo feito com um só palito de fósforos e a água esquentando para um café. Era hora de sentar e respirar. Mas os primeiros mosquitos, vindos do outro lado do rio, nos lembraram de juntar um pouco de esterco seco para queimar, e aí sim descansamos.

A primeira tarefa do dia seguinte seria, após o desjejum, avisar a casa da fazenda de nossa chegada e instalação, conforme autorização prévia - o aspecto diplomático.

Manhã dedicada ao reconhecimento do terreno, detalhes topográficos coincidentes e dissidentes do mapa, e identificação das árvores e plantas nativas próximas ao acampamento. Cozinha e almoço já passado da uma da tarde. Que maravilha! Uma curta sesta à sombra de uma frondosa figueira, e depois examinar o rio pedregoso e de águas cristalinas. Um convite ao mergulho.

Não lembro o que fazíamos dentro d’água, quando chegaram as duas gatinhas. Nós as vimos já sentadas na barranca, olhando para nós e rindo uma com a outra - fora do script. O riso das moreninhas, gracinhas, nos contagiou e elas logo pularam n’água para brincar conosco. Eram a filha do capataz e uma prima que vinham sempre ali para se refrescar e trocar confidências de seus namoros.

Uma certa intimidade logo se criou, propiciada pela água, creio, as roupas molhadas - quase transparentes - grudadas no corpo, e a inocência de nossos verdes anos, mais transparentes ainda. Quando alguém propôs uma corrida, a prima que estava comigo disse não saber nadar. Sem problema, disse eu, e logo começamos nossa aula de natação. Não sei como, mas sumiram todos e todo o entorno de minha lembrança. Estávamos ali, naquele remanso diáfano, apenas eu e minha aprendiz: eu girava em pé, sustendo-a à superfície com meus braços, enquanto ela, deitada de bruços, batia com os pés n’água; sua tetinha direita aninhada na minha mão esquerda, qual inebriante champanhe, fazia-me voar por uma reta infinita. O que me vem depois, enquanto seguro na mão este velho pedacinho de tecido caqui, bordado de vermelho, com um lambda grego maiúsculo representando uma barraca, é uma vaga lembrança desta partie carrée do Manet, conhecida como Le Déjeuner sur l’herbe, e nada mais.

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