Um círculo retificado tende ao infinito.
GIRARD DESARGUES.
Rascunho de um projeto para atingir as conseqüências
do encontro do Cone com um Plano
E a moça ria-se entre árvores ondulantes,
e era uma ondina saída de algum rio,
e seu vestido era de luz e de água.
CECÍLIA MEIRELES,
A moça pecadora apareceu-me de branco.
Eu já fizera diversas especialidades e minha ombreira ostentava
orgulhosa as respectivas insígnias. Mas era tempo de conseguir mais
uma para continuar o percurso.
Foi quando meu amigo me perguntou se eu já tinha a especialidade
de Acampamento. Ele, então Guia de nossa tropa de Escoteiros, estava
disposto a tentar essa difícil especialidade e me convidava para ser
sua testemunha. Se eu quisesse, também poderia me colocar à
prova e ele seria, por sua vez, minha testemunha. Verdade que eu era Chefe
da Patrulha do Lobo há dois anos e fizera diversos acampamentos com
toda a tropa e mesmo só com minha patrulha; tinha bastante experiência,
mas ainda não estava convencido dessa suficiência. Talvez por
isso a idéia não me ocorrera até então. De qualquer
modo, uma coisa é carregar uma barraca nas costas dividida entre os
três ou quatro que a ocuparão, e outra, carregá-la sozinho.
Naquela época as barracas não eram deste nylon levezinho de
hoje, e sim de uma lona verde, pesada; sobras do exército. E tinha
também as panelas e toda a tralha necessária: cantil, talheres,
mantimentos, bússula, etc. Mas enfim, por que não tentar?
Marcada a data, lá fomos nós, cada um carregando uma montanha.
O trajeto no bolso já estava bem estudado, e o caminho não
oferecia maiores dificuldades, embora nos fosse desconhecido - a primeira
exigência do teste. Oito horas de caminhada, e chegamos, quase mortos,
ao X que tínhamos escrito no mapa. Uma pequena península formada
pela curva do rio, limite entre o campo onde criavam gado e uma mata espessa
que o margeava por toda a extensão alcançada por nossos olhos.
Uma linda paisagem naquele entardecer comprido de verão. Todas aquelas
cores no céu com algumas reses ainda pastando silenciosas. Nada mais
bucólico!
Barracas armadas, cada coisa no seu lugar, o crepitar do fogo feito com
um só palito de fósforos e a água esquentando para
um café. Era hora de sentar e respirar. Mas os primeiros mosquitos,
vindos do outro lado do rio, nos lembraram de juntar um pouco de esterco
seco para queimar, e aí sim descansamos.
A primeira tarefa do dia seguinte seria, após o desjejum, avisar
a casa da fazenda de nossa chegada e instalação, conforme
autorização prévia - o aspecto diplomático.
Manhã dedicada ao reconhecimento do terreno, detalhes topográficos
coincidentes e dissidentes do mapa, e identificação das árvores
e plantas nativas próximas ao acampamento. Cozinha e almoço
já passado da uma da tarde. Que maravilha! Uma curta sesta à
sombra de uma frondosa figueira, e depois examinar o rio pedregoso e de águas
cristalinas. Um convite ao mergulho.
Não lembro o que fazíamos dentro d’água, quando chegaram
as duas gatinhas. Nós as vimos já sentadas na barranca, olhando
para nós e rindo uma com a outra - fora do script. O riso das
moreninhas, gracinhas, nos contagiou e elas logo pularam n’água para
brincar conosco. Eram a filha do capataz e uma prima que vinham sempre ali
para se refrescar e trocar confidências de seus namoros.
Uma certa intimidade logo se criou, propiciada pela água, creio,
as roupas molhadas - quase transparentes - grudadas no corpo, e a inocência
de nossos verdes anos, mais transparentes ainda. Quando alguém propôs
uma corrida, a prima que estava comigo disse não saber nadar. Sem
problema, disse eu, e logo começamos nossa aula de natação.
Não sei como, mas sumiram todos e todo o entorno de minha lembrança.
Estávamos ali, naquele remanso diáfano, apenas eu e minha aprendiz:
eu girava em pé, sustendo-a à superfície com meus braços,
enquanto ela, deitada de bruços, batia com os pés n’água;
sua tetinha direita aninhada na minha mão esquerda, qual inebriante
champanhe, fazia-me voar por uma reta infinita. O que me vem depois, enquanto
seguro na mão este velho pedacinho de tecido caqui, bordado de vermelho,
com um lambda grego maiúsculo representando uma barraca, é
uma vaga lembrança desta partie carrée do Manet, conhecida
como Le Déjeuner sur l’herbe, e nada mais.