Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva

MISS FRANCIS

Luiz-Olyntho Telles da Silva
2005-2007

Não há harmonia perfeita possível entre um homem e uma mulher, mas uma discordância na qual pode se alojar a aventura pessoal.
GÉRARD HADDAD
O dia em que Lacan me adotou


Recebi meu diploma de Engenharia Mecânica pela Universidade de Bordéus, e logo consegui um emprego em uma grande empresa dedicada a dar ajuda tecnológica às colônias. A maquinaria mais adequada para terraplanagens, abertura e construção de estradas, fixação das margens dos rios, essas coisas. Eu estava muito identificado e contente com o trabalho, os negócios iam bem, e meus chefes estavam satisfeitos.

Surgiu então uma possibilidade de promoção, mas ela envolvia negócios com os Estados Unidos da América e, claro, era preciso falar inglês! Aquela gente não conhecia outro idioma. Na França estávamos então recém despertando para esta necessidade de conhecer outras línguas. Aconselharam-me a tomar aulas particulares. Seria mais rápido e eu aproveitaria mais.

Já havia estado com dois professores e não conseguia engrenar na sintaxe, no domínio da língua. Havia algo incompreensível na gramática e não conseguia me fazer entender por meus mestres. Pensar em alguém se anunciando sempre com um I maiúsculo para dizer um simples je? Difícil!

Durante uma viagem a Paris, fui procurar por uma boa gramática, e aí tomei conhecimento, um tanto surpreso, através de uma livreira disposta a escutar minhas dificuldades, da existência, em Bordéus mesmo, de uma professora fantástica capaz de resolver rapidamente minhas dificuldades. Embora morasse há muitos anos aqui, era americana e viajava com freqüência. Para aprender os trejeitos e particularidades da língua é preciso estudar com alguém entendido nas idiossincrasias do país. Miss Francis haveria de ajudar-me. Elle est très vivant. Tu l’aimera bien – disse-me a livreira como despedida.

Miss Francis era bem como disseram dela em Paris, e ainda mais. Sua firmeza não doía aos meus ouvidos e minhas dúvidas eram sempre logo esclarecidas, era gentil, meiga.... Encontrávamo-nos duas vezes por semana para ouvir fitas de diálogos e depois repeti-los dramaticamente. Isso nos divertia muito. Líamos textos e discutíamos com seriedade. Doía encerrar cada aula. E então aconteceu. Foi num final de tarde, a aula estava nos seus últimos minutos quando ela veio olhar uma carta comercial recém escrita: olhou-a por sobre meu ombro e, quando se debruçou para acrescentar um apóstrofo omitido por descuido, seus seios firmes roçaram meu braço incendiando nossa relação como madeira já aquecida.  Não precisou senão um olhar e Miss Francis aninhou-se no meu colo, ambos surpresos e felizes com aquela cena quente e silenciosa. Escorregamos para o tapete desfrutando as delícias do eufemismo, e depois, já recostados no sofá, enquanto eu mussitava um merci beaucoup ao seu ouvido, com uma voz rouca - um verdadeiro Jean Marais, em A bela e a fera -, ela, já tomada pela lassidão do amor satisfeito, virou seu lindo rosto para mim e com seus olhos pousados lá no fundo de minh’alma disse com a voz mais calma e suave do mundo: - You are welcome.


CONTOS
TEXTOS
PÁGINA PRINCIPAL
Escreva aqui seus comentários