DESEJO DO ANALISTA[1] 
 
Ricardo Estacolchic
  

          “Você foi eleito. Participará de um fantástico sorteio no qual ganhará fabulosos prêmios. De fato, já ganhou porque nós já realizamos uma rigorosa seleção prévia”. 
          Vocês reconhecerão, assim o espero, esta mensagem habitual recebida por qualquer habitante de qualquer cidade[2]. 
          Eu já recebi este tipo de comunicação de lugares muito distantes e cujo objeto eram coisas que em absoluto me interessavam, como a loteria alemã ou não sei qual grande concurso da revista Seleções de Readers Digest. Para aproveitar minha boa sorte, já que o dedo maravilhoso da fortuna me assinalava a mim mesmo, eu devia abonar uma determinada quantidade de dinheiro, por certo insignificante perto de tudo que estava a minha disposição. Outras vezes é um “Tempo Compartido”. Tomando em conta que o tempo vale ouro, é justo que, se alguém oferece repartir seu ouro comigo, devo retribuir tanta generosidade sem opor melindres. Quase sempre evito detalhar publicamente a quantidade de vezes que fui eleito, porque não sei se me agrada tanto provocar inveja e admiração. 
          Se mensagens tão pueris têm chegada e permanência no mercado das demandas, não seria demais examinar aonde chegam. 
          No momento, digamos ingenuamente que talvez cheguem a um lugar comum em cada um de nós, e chamemo-lo “o lugar onde aguardamos a boa sorte, o bom encontro”. 
          Creio que se pode discriminar dois itens principais nestas comunicações, porque as pessoas que os elaboram não são ingênuos; a mensagem parece ingênua, mas se dirige à produção de um momento de idiotização e é porque busca este lugar profundamente angelical da estrutura subjetiva. 
          O primeiro item é que você foi escolhido, porque se, sem pedir, já é quase culpado se é que neste momento pensava em qualquer outra coisa enquanto a deusa da fortuna o observava; o menos que se pode dizer é que você está “por fora”. 
          Item dois: Vai desprezar sua boa sorte? Ou vai aboná-la? (“abonar” possui uma valência dupla: pagar, mas também fertilizar, fazer que a coisa cresça[3]). 
          Por mais descrente que você seja, se recebe três mensagens deste calibre, irá pensar um pouquinho no assunto e se, entretanto, lhe acontece uma causalidade como, por exemplo, encontrar-se com alguém que estima e faz tempo que não vê, então nem pensar. 
          Inclusive mais de quatro (porque não é necessário captar todos) podem começar a se interessar pelo tema, já que a embriaguez de “ser eleito” pode durar um tempo enorme. 
          Outros podem sentir que se lhes dá algo maravilhoso, mas sumamente delicado, uma comunhão mágica a preservar. 
          De modo que primeiro está a eleição do Outro e está o sujeito em disposição de abonar a dita escolha. 
          Acredito que a potência performativa da escolha e da designação é enorme; eu a apresentei com um matiz satírico, mas sua gravidade pode ser melhor apreciada, por exemplo, no Seminário III, nos capítulos dedicados a “Tu és aquele que me seguirás”. 
          Façamos uma suposição um pouco mais avançada, menos ingênua e cômica. Mais grave e mortificante. Imaginemos que eu nasci Capuleto. Mas digo Capuleto como posso dizer Sérvio, Croata, Árabe, Judeu, etc. Isso irá impor-me “de repente” uma quantidade de ações e sentimentos concretos, os quais talvez não tenha dificuldade em expressar, na medida em que formem parte do conjunto de preceitos não interrogados que marcam minha vida real. Por exemplo, um sentimento conveniente é odiar com grande entusiasmo aos chamados Montechio. Mas ainda podemos imaginar que por razões de tradição, do prestígio de meus pais ou seu desejo ou seus prejuízos, qualquer coisa, eu poderia ser o designado para suportar o mais alto do prestigio e a honra dos Capuletos. 
          Como posso estar à altura adequada? 
          Dito de outro modo, como vou legitimar um amor paterno que me resulta indispensável, mas no momento tem algo de injusto, de azarado, um amor ou uma designação que ainda não abonei? 
          Do que qualquer um faz, nem falar, terei que aborrecer aos outros superlativamente, não desfalecerei jamais, talvez devesse assassinar algum? Ou a todos? 
          Mas... E se os Montechios não me interessam? A literatura, inclusive, aproveita amplamente o conflito entre a designação ou a tradição e o desejo: quando, por exemplo, os designados para o ódio se enamoram sabe-se que as conseqüências podem ser trágicas, e não só em matéria de represálias dos Outros. Tenho visto enfermidades orgânicas graves, mesmo mortais, fazer-se presentes se é que o sujeito se atreve a recusar uma designação que já não suporta mais. 
          Quando Agamenon, pai de Ifigênia, prepara-a para ser a luz e a potência da Grécia, neste mesmo ato, nesta mesma oferenda que quiçá contenha amor, ele está encomendando a ela o cuidado desta designação que ela deverá preservar inclusive oferecendo sua vida real, precisamente sua vida real! 
          Pois bem, esta é a neurose ou, melhor dito, a normalidade neurótica comum, habitada por isso que Lacan chamava o disco-corrente. 
          Os prêmios maravilhosos assim como os grandes sacrifícios buscam ao filho fálico de cada um; não há somente um anão fascista, a este todos criticamos com esmero; mas o lindo nenê, da mamãe e do papai, o lindo bebê, desde logo nos agrada mais. 
          Se há algo que a experiência analítica ensina é que a idade real de um nenê do papai e da mamãe pode muito bem ser 80, 90 ou 100 anos, ainda que às vezes seja um pouco menos. Há nenês do papai de 80 anos ou mais. 
          E esse é o anjinho que aceita tanto as maravilhas como as proposições ao sacrifício, é o bom objeto que faz a plenitude do Outro. 
          E os aceita para ser, levado por sua paixão de ser ou, como dizem, de realizar-se, paixão que de vez em quando o convida a real-izar-se, ou seja, a fundir-se no real através do suicídio. 
          A paixão de ser coloca o sujeito quiçá ao amparo do Outro, mas sobretudo a seu serviço e isto é o automatismo mental da neurose[4] 
          A análise, seu fim e sua finalidade vão em direção oposta. 

*  *  *
          O motor da análise, se diz, é o desejo do analista. Podemos afirmar algumas coisas a respeito deste desejo. 
          Conforme ao exposto, é sensível advertir que se trata de um desejo que não coincide com os discos correntes, esses que abonam a paixão do ser e que ao mesmo tempo abonam o que Freud chamava “Miséria neurótica”. A miséria neurótica se abona, exatamente com o mesmo fertilizante que a paixão do “ser”. 
          Coincidirá então (o desejo do analista) com o pequeno desvio por onde a paixão de ser faz amizade com o desejo de ter ou, melhor dito, com a frenética reclamação habitual de ter e ter para poder acalmar-se por alguns minutos? Salvo por ocasionais motivos táticos ou vacilações calculadas, não creio! 
          Se o núcleo do desejo do analista não fosse muito circunspecto, reticente eu diria, com respeito à amplíssima gama de propostas onde o ser golpeia a cabeça contra a parede do ter, que aconteceria? Estaria favorecendo a assimilação do objeto “a” a um objeto empírico, e se tivéssemos que dizer algo do objeto “a”, seria que não se trata de um objeto comum, não se trata de um objeto que se possa demandar. Dita assimilação devolve ao sujeito o amparo do Outro, sobretudo sua servidão. Servidão reforçada cada vez que o desejo se assimila à demanda, gera por sua vez sintomas e angústia cada vez piores. 
          As servidões podem mesmo provocar alívios transitórios, compensações, porquê não? Um governo não costuma suportar-se melhor que uma análise; e também é certo que é preciso ter em conta a estrutura de base. Mas hoje nos reúne o final e então, o desejo do analista será um desejo de nada? Não de ‘nada’, dito assim de forma seca, senão de nada que incremente o narcismo do desejo, quer dizer, onde o desejo se desvia em paixão de ser fálico. 
          É por esta razão que se pode afirmar que o desejo do analista é um desejo abstinente. Abstém-se de indicar qual é o objeto bom. Abstém-se de indicá-lo pela razão mais simples do mundo: porque não sabe. 
          Se algo deve ter extraído o analista de sua própria análise é justamente a marca indelével, ativa e irrefutável de que ninguém sabe qual é o bem. Isso o sabem o papai e a mamãe da criança fálica (assim lhes parece), não o psicanalista. Se o analista conhecesse o bem do outro, a psicanálise não seria necessária, nem sequer teria existido; esta é uma verdade primeira que convém ter presente. 
          Quando o analista conhece o bem, todo o processo se reduz a uma posta em ato de sua pulsão de domínio. O desejo do analista é um desejo que se vê livre da pulsão de domínio, justamente porque não conhece o bem, na análise não conhece o bem; a pulsão de domínio pode ser exercida no ginásio, ou com a esposa, o marido, etc. 
          Requer um longo tempo percorrer a história na análise, reescrever alguns capítulos, inclusive retocá-los várias vezes. Não há modo de abreviar isso e pretender encurtá-lo seria, uma vez mais, conhecer o bem. 
          Chegado porém o final, o sujeito já renunciou a várias enfatuações e delírios de presunção. O mais persistente destes delírios de presunção é o que me leva a pensar que eu poderia ter tido pais diferentes dos que tive, e ainda poderia seguir dizendo “eu penso” e esse eu seria o mesmo, mas com diferentes pais. Este delírio informa muito bem acerca do que significa o narcismo, que Freud via com razão como o limite das análises e do que implica reforçá-lo, coisa que infinitiza a análise. Eu poderia ter as mesmas idéias, gosto, reflexões, sensibilidade e tudo isso, mas ter nascido de pais diferentes. 
           É preciso um longo percurso para renunciar a essa enfatuação, para estar advertido de que para eu ser o que fala era absolutamente necessário que todos e cada um dos acontecimentos de minha história tivessem ocorrido tal qual sucederam, nessa ordem e com todas as contrariedades e frustrações; porque se não tivessem acontecido como tal, esse eu que fala não seria o mesmo, ou seja, que é vão interrogar-se acerca de coisas que não importam; Lacan dizia que a análise é tomar em conta as coisas que importam. 
          O difícil, o inaudito do momento final, é, como me disseram certo dia, que agora não há em quem jogar a culpa. Este é um reconhecimento de dívida verdadeiro, genuíno e sem falsa impostura; sem venerações impostas as coisas foram assim e assim deviam ser. Mas não se trata de uma aceitação cega do destino em sua louca autoridade, ao contrário. 
          Para quê então me dei conta de que as cartas que me tocaram são boas se é que as jogo habilmente e dando tempo ao tempo? Seja como for, são essas e não vale a pena pensar que teria sido maravilhoso ter outras. Devo jogar bem porque a partida é hoje. Partida nos dois sentidos. 
          O sujeito do fim de análise não é um descrente, só que não crê nas suficiências. 
          Não há inconveniente algum em pensar que em matéria de desejo o bom Deus preferiu deixar alguma página em branco a fim de preservar em cada qual sua particularidade. 
          O sujeito do fim de análise adequará[5] seu imaginário ao real, ao menos em dois sentidos diferentes: não vale a pena considerar as coisas como deveriam ser senão como realmente são; o bem do outro é impossível de saber. Inclusive acerca do próprio bem adquire um saber que com gosto chamo de socrático. Recordar-se-á que a vantagem de Sócrates a respeito de seus concidadãos consistia apenas em vislumbrar sua própria ignorância. Este é o efeito da castração, não do “complexo de castração” no imaginário. 
          No final de análise o sujeito cruza o rubicão das demandas e estátuas de suficiência. Navega embarcado em sua divisão subjetiva. Sabe que interessa menos a outra margem do que a navegação como tal. 
Notas:

1.  Ao que tudo indica, este texto foi inicialmente apresentado em uma mesa sobre o final de análise. Tradução de Luiz-Olyntho Telles da Silva.
2.  O autor escreve Buenos Aires.
3.  O dicionário Aurélio não registra este sentido em português (N. do Tradutor).
4.  Faz pouco, pretendi mostrar, baseado em uma fantasia de Borges (Três versões de Judas) como o sujeito, ainda no extremo da abjeção, pode estar identificado ao Outro como lugar da plenitude.- R. Estacolchic: O cálculo da neurose, Biblioteca EFBA.
5.  O autor utiliza o verbo adequar na terceira pessoa do tempo presente. Como em português trata-se de um verbo defectivo no qual não se conjugam as três pessoas do presente singular, optei por passar o verbo ao futuro (N. do Tradutor).