Página de Luiz-Olyntho Telles da Silva


A VIAGEM DOS HOMENS

AS CONSEQÜÊNCIAS DO FRACASSO*

por
Luiz-Olyntho Telles da Silva

A Cartago de Dido, By Turner
W.J.M. Turner: Dido construindo Cartago, 1815.          
Pus meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos
para meu sonho naufragar.


CECÍLIA MEIRELLES

O que é passado é prólogo.

W. SHAKESPEARE

Rain drops keep falling on my head.

B. J. THOMAS


            Senhoras e senhores

        Viajar é preciso. É provável que não haja nada mais presente na vida dos homens do que as viagens. Conversando com um colega, dia destes, ele me dizia de sua preocupação com as viagens, cada vez mais perigosas, cada vez mais mortais. As pessoas saem para as estradas para se matar, me dizia ele. Acho que é verdade, pois se não saem para se matar, certamente saem para conviver com a morte. Trágico, mas verdadeiro!
        Vou tentar falar-lhes disso e, claro, vou tentar falar disso desde este nosso cenário. Refiro-me a esta mesa à qual fui gentilmente convidado a participar. Uma mesa de poetas.
            Isto implica que devo falar-lhes da temeridade. Os poetas são os temerários que sempre andam na frente. Lacan, falando de Marguerite Duras, diz isso claramente: os poetas, os artistas em geral, andam sempre na frente.  E depois os homens de ciência, que vem logo atrás – e neste caso incluo também os Psicanalistas – aproveitam os resultados deste enfrentamento na tentativa de clarear, de melhor dizer dos meandros de suas disciplinas. Assim, por exemplo, o Físico Murray Gell-Mann que retira do capítulo XII do Finnegans Wake, de James Joyce, a palavra quark para com ela batizar uma partícula subatômica constituinte da matéria.
            E se devo falar-lhes de temeridade, observem só como é interessante esta palavra. Em geral os temerários, os que praticam a temeridade, são conceituados pelos dicionários como aqueles que desconhecem o medo, audaciosos que cometem atos imprudentes. Mas na minha opinião não é bem assim que as coisas se passam. Vejam que tanto o substantivo temeridade como o adjetivo temerário começam pelo temor. Quer dizer, se os poetas andam na frente, na frente dos poetas temerários anda o temor. E, como todos os que temem, tomam lá, cada um, suas melhores providências para esconjurar este medo. Quero dizer com isto que o poeta inegavelmente pergunta pelo que o aguarda na obscuridade do caminho, pergunta pela noite, pergunta pelo futuro. Feita a pergunta nada mais lhe resta a não ser inventar uma resposta. Sim, inventar! E, claro, contar com a luz da manhã. Como dizia Gustav Mahler, O criador é um arqueiro que dispara na escuridão. E isto, lhes asseguro, é o melhor que podemos fazer. O resultado das invenções são benéficos para seu autor e, em geral, importantes transcendências fantasmáticas para sua comunidade, algumas vezes para o mundo como um todo – deturpações à parte.
            Quando o homem de Altamira, um artista rupestre, desenha os bisontes na parede da sua grande sala sendo mortos por suas azagaias, ele está pondo em ação sua invenção para esconjurar as dificuldades de seu caminho para o futuro. E eu lhes pergunto: lhes parece demasiado dizer que se estamos aqui, hoje, é graças a alguém, 14 mil anos atrás, ter visto valor em exorcizar o que ainda não aconteceu?
            Recentemente, embora já há alguns anos, tive o privilégio de ler os originais de um romance de uma menina de doze anos. Nele, ela contava a história de uma mocinha que aos trezes anos foge de casa, tem uma paixão distante por um escritor mais velho, bem mais velho, e dorme na praia, na Bahia, de mãos dadas com um amigo, entre outras peripécias. Não preciso lhes dizer que a estou comparando com o artista de Altamira. Mas, se ambos dizem de suas fantasias para com o futuro, posso lhe dizer que a jovem autora não fugiu de casa aos 13, nem aos 15; pelo contrário, vive muito bem com seus pais e amigos, embora já não se possa negar sua grande independência. As suas inquietações não são diferentes das que aparecem em Collodi, Mark Twain, Nabokow e mesmo nas Aventuras de uma negrinha que procurava Deus, de Bernard Shaw. Estimo que ter escrito de modo dramatizado sobre suas fantasias deve tê-la ajudado a ser hoje quem é.
            E isso é falar de viagens? Por quê não? Talvez pudéssemos falar mesmo da viagem entre o ge e o jota. Pois não é interessante que viagem se escreva com ge e viajante com jota? Talvez me digam que para isto já seria preciso um pouco mais de maionese, não é mesmo? Em fim, o que é mesmo que define uma viagem? Ir de um lugar a outro. Basicamente é isto. Se vamos a pé, com o Grêmio, de balão através da África, com Júlio Verne desde Madagascar até sermos arrastados por um rinoceronte para dentro do Lago Vitória, de carroça, em direção ao oeste, de ônibus, junto com o destino, se nossa odisséia é pelos mares de Ítaca ou pelo espaço, com Kulbrick, com o May Flower ou com alucinógenos, etc., etc., etc., já será outra história. Afinal, como diz Lupicínio Rodrigues,
o pensamento parece uma coisa à-toa,
mas como é que agente voa
quando começa a pensar.
           A verdade é que nós, brasileiros, assim como todos os americanos, temos uma história que começa com grandes viagens, seja a dos nômades que deram a volta desde a Ásia passando pelo estreito de Behring  até as nossas plagas, seja a das grandes navegações de Vasco da Gama, Colombo e Cabral.
            Camões cantou as viagens dos portugueses. Vasco da Gama era o herói do momento equiparado nos Lusíadas a Enéas.
          Colombo não começou descobrindo a América. Começou como grumete e nas suas horas de folga lia o relato das viagens de Marco Pólo ao oriente nos fins do século XIII. Interessante que as grandes aventuras de Marco Pólo, iniciada aos 17 anos de idade, talvez por ser filho de navegadores, termina na prisão. Se lhes parece pouca a idade para viajar, lembremos que é com a mesma idade que Auguste de Saint-Hilaire viaja para o Brasil em busca de nossa flora. Era a idade em que se começava a época. Nas suas pesquisas, Saint-Hilaire sofre um envenenamento com mel de Lechiguanas (uma vespa hoje mais conhecida como enxuí) e sua longa recuperação lhe dá muito tempo para pensar e organizar suas descobertas. Já as viagens de Marco Pólo levam-no, enquanto veneziano, à prisão de Gênova. É aí que ele dita a seu companheiro de cela, Rustichello, as memórias de suas viagens. De modo que Colombo não ignora, de modo nenhum, as desventuras das viagens. Pode-se dizer mesmo que os percalços das viagens aguçam sua curiosidade. O temor aparece intimamente relacionado ao desejo. Se depois Colombo imagina haver encontrado o Paraíso, isto só mostra que as viagens e os sonhos andam juntos.
        A carta de Caminha, revelando à Europa o dealbar de nossa terra, revela também uma imagem paradisíaca. Esta idéia de encontrar o paraíso, não é rara: um amigo que voltou nesta semana da Chapada dos Guimarães, em Goiânia, me descreveu a mesma coisa, um Paraíso! E as queimadas que o cercam... um inferno.
        Mas é isso, busca-se o Paraíso. Dê-se o nome que se der, Céu, Walhala, Campos Elíseos, busca-se o Paraíso. Os egípcios tinham mesmo um mapa para chegar lá. Não se enterrava um faraó sem que nas paredes da grande sala da pirâmide estivesse inscrito o Livro dos Mortos, no bem humorado dizer de Freud, o primeiro Baedecker, o primeiro guia de viagens.
            Aproveito para justificar a chistosa viagem entre o ge e o jota. A etimologia de viagem nos remonta a viaticum, que dá para nós, em português, o conhecido viático, este farnel, a galinha com farofa que o viajante leva para agüentar a viagem. Mas viático é também o Sacramento da Eucaristia administrado aos enfermos impossibilitados de sair de casa. Isto me faz pensar que aos viajantes, os que saem de casa, lhes interessa cuidar não só da barriga mas também da alma. É preciso, desde sempre, recomendar-se aos bons espíritos. Não se pode sair de casa sem um bom viático.
            Agamêmnon está em Áulis, pronto para partir contra Tróia com sua frota, mas não há vento. Calcas, o adivinho de plantão lhe diz que para haver vento é preciso antes imolar sua filha Ifigênia em homenagem à Ártemis. Se com Cristo no barco tudo vai muito bem, sem a benção dos deuses parece que nada é possível.
         Entre as viagens destes gregos - que para alguns não passaram de delinqüentes - destaca-se a de Ulisses. A viagem de Ulisses torna-se o modelo d’A viagem. Seja o interminável retorno dos argonautas, como não deixava de suspirar Penélope, conforme nos conta Homero no século IX a.C. em sua Odisséia, seja no passeio de um dia de Leopold Bloom pela cidade de Dublin, em 16 de junho de 1904, no romance do escritor irlandês James Joyce.
        Interessante notar que na mesma época em que Ulisses passeava pelo Mediterrâneo, entre 1250 e 1230 a.C., Moisés vagava pelo deserto, não muito distante dali, em busca da prometida Canaã. Se ele fracassa ante as portas, sabemos contudo do que resultou seu Êxodo para todo um povo.
            Certamente que a viagem de Ulisses também não é plena de sucesso. A Odisséia, a história de Odisseu, é plena de dificuldades, as sereias, Circe, Polifemo, etc. E se ele escapa de todas as dificuldades e não vai para a cadeia, como Marco Pólo, ao chegar em casa se atormenta com a dúvida a respeito da fidelidade de sua mulher. Calipso o detivera tempo demais! Os insucessos, os tormentos, são sempre os melhores argumentos da literatura. O happy end é apenas uma de suas tendências, correlata ao Paraíso. Já que temos de morrer, que seja da melhor maneira. Não é o que diz Shakespeare? Bem está o que bem acaba.
            A literatura sobre viagens atingiu um grau tal de importância e divulgação no século XVII, que Jonathan Swift escreveu o seu famoso Viagens de Gulliver para ridicularizá-las. Mas a verdade é que enquanto mostra os homens ora vistos como muito pequenos, ora muito grandes, ora como imortais ou vivendo em uma comunidade formada apenas de intelectuais, ou ainda comparando o homem a cavalos dotados de razão que tratam os yahoos como cachorros, ele vai dizendo das diversas facetas do homem, abrindo caminho para uma visão do interior do homem.
            Este sempre me pareceu o aspecto mais importante da literatura de viagens, a possibilidade de melhor conhecer o homem, pois afinal o que ele nos conta que vê deve ser o que tem dentro de si. As viagens obrigam o homem a se reorganizar internamente. Depois de viver dez anos fora dos Estados Unidos, Henry Miller passa um certo tempo viajando de carro pelo país. Inconformado com o que vê ele publica Air-Conditioned Nightmare para poder conviver com o pesadelo.
        Em viagem, o homem está sempre exposto, mais vulnerável e esta sua característica da vulnerabilidade aos imprevistos, às intempéries, sempre me deixa muito comovido.
            Por isto pensei em falar-lhes de Shakespeare, pois ele é mestre em colocar o homem frente ao imprevisto. Cheguei a pensar em falar-lhes da comédia d’O Mercador de Veneza, pois sempre desconfiei que algo deve ter a ver com Marco Pólo. Poderia falar-lhes de seu grande personagem, Shylock, o judeu avarento que nos ajuda a pensar sobre os custos de uma viagem. Sim, viajar é preciso, mas quanto custa?  
            Meu grande sonho - perdidas as ilusões, já posso lhes confessar - era fazer uma circunvolução do Mediterrâneo junto com meus filhos. Queria ver com eles os lugares por onde passou Europa em sua fuga de Zeus; fazer, de barco, a travessia que ela fez a nado; cruzar o Estreito de Bósforo, que outra coisa não quer dizer que passagem de vaca. Foi por aí que Europa passou de volta à Ásia Menor. Aliás, por falar em passagem de vaca, Oxford, na Inglaterra, onde está a grande Universidade, quer dizer a mesma coisa. Começamos por seguir os animais. Nós os adorávamos enquanto a ciência não nos ajudava a entende-los. O touro, o grande El, gerador do hebraico Eli, foi adorado por vários povos da antiguidade, pelo menos até serem proibidos por Moisés. Mas como as coisas não deixam de existir de uma hora para outra, ainda mais por decreto, há quem veja nos encaracolados cabelos do Moisés esculpido por Miguel Ângelo, uma reminiscência dos adorados chifres, mesmo embora Freud não os tenha visto.  Hoje não mais adoramos estes animais, nós os tememos: de objetos adorados passaram a objetos fóbicos. A primeira letra do alfabeto fenício, o Aleph, retrata uma cabeça de vaca. Se virarmos o nosso A maiúsculo de cabeça para baixo, ainda poderemos ver aí a antiga cabeça de vaca inspiradora do Aleph. Europa mediante. Cabeza de Vaca, lembremos ainda, é também o nome de um grande viajante europeu andando pelas Américas logo das descobertas.
        A viagens são mesmo perigosas. Europa não voltava para casa e seu pai, Agenor, preocupado, envia os outros filhos em sua procura. Entre eles, Cadmo que, tal qual os outros dois irmãos, já não consegue encontrar a irmã e termina, como conseqüência de seu fracasso, por fundar a cidade de Tebas. Descendente de Cadmo será Édipo, cuja tragédia servirá a Freud como modelo das relações entre pais e filhos, pois ele vê nos mitos vestígios distorcidos de fantasias plenas de desejos de nações inteiras. [1]
            Estas são algumas das coisas que Shylock me faz pensar quando pede como ágio uma libra de carne do Mercador de Veneza.
        Mas a peça que escolhi para lhes falar foi A Tempestade, a última escrita apenas por Shakespeare, antes deste associar-se a John Fletcher. Um romance.
            Escolhi-a por diversos motivos. Um deles, para não dizer que foi o primeiro, foi o fato de Shakespeare colocar seus personagens na chuva e, vocês sabem, quem vai à chuva é para se molhar! Quero crer que a tempestade é um recurso utilizado para provocar a vulnerabilidade dos personagens. Outro motivo de minha escolha pode ter sido o fato de que recentemente me deparei, absolutamente por acaso, com um outro texto que provavelmente tenha servido de inspiração ao Bardo. E por fim, porque nesta comparação entre os textos sou levado a um terceiro texto que muito me surpreende por sua clareza ao mostrar o homem em busca de si mesmo, debatendo-se com a morte.
        Antes de seguir, porém, um esclarecimento. Não sou um especialista em Shakespeare, como de resto, não sou um especialista em nada. A Psicanálise não é, a despeito de muitos assim o pensarem, não é, repito, uma especialidade. O compromisso do Psicanalista é o de ler e analisar aquilo que se lhe apresenta e esta é a tarefa a que me proponho. No livro que recentemente publiquei, com o singelo título de Leituras, é a isto que me proponho. Ler aquilo que se me apresenta desde este viés. O fato de ele estar catalogado como Crítica Literária não é de minha responsabilidade. Digo-lhes isto porque Harold Bloom sim é um Crítico e especialista em Shakespeare. É dele que tomo referências para classificar A Tempestade como um romance e O Mercador de Veneza como uma comédia. Outra coisa que me chama à atenção é que Bloom pouco sai de Shakespeare na busca de fundamentos para suas peças. Assim, para fundamentar o tema de A Tempestade, ele recorre praticamente apenas ao Doutor Fausto, de Marlowe.
            Pois bem, embora os senhores provavelmente já conheçam a peça, conto-lhes brevemente seu enredo para maquiavelicamente justificar meus fins: Viajam em um navio o Rei de Nápoles com sua comitiva, irmão, filho e conselheiro, mais Antonio que se fez Duque de Milão usurpando o ducado de seu irmão quando, de repente, o barco é sacudido por uma grande tempestade e afunda. Logo adiante fica claro para o espectador que o que parecia um terrível naufrágio não passou de um lance de mágica ordenado por Próspero, o verdadeiro Duque de Milão, exilado nesta ilha em que faz chegar suavemente o navio com a eminente tripulação. Os náufragos, contudo, não se dão conta e agradecem aos céus por sua rara sorte.
            A grande mágica é possível graças à interferência de Ariel, um Espírito etéreo sob as ordens de Próspero. É aí que Bloom o compara com o Fausto que vende sua alma ao diabo para ter controle sobre as forças da natureza. Exilado nessa ilha, em companhia de sua filha Miranda, Próspero se dedica, como Fausto, aos estudos esotéricos. O que ele busca com isso é aproximar sua filha de Ferdinando, o filho do Rei de Nápoles, casá-los e assim retomar o ducado de Milão. Isto tudo com a ajuda de Ariel e Caliban, um monstrengo filho de uma bruxa.
            O outro texto com o qual me deparei, quase que como por acaso, foi a Eneida de Virgílio.  O vínculo entre uma e outra me foi de certo modo assoprado por minha mulher quando examinávamos admirados, no nosso MARGS, as maravilhosas tapeçarias do Petit Palais, de Paris, ao nos deparamos com o deslumbrante “Dido e Enéas surpreendidos pela tempestade”. Foi aí, quando Maria da Glória chamou minha atenção para a delicadeza das gotas de chuva, as poéticas rain drops, que as tempestades começaram a se aproximar.
            A tempestade que obriga a Rainha Dido e Enéas a se abrigarem em uma caverna foi obra de Juno, protetora de Dido, com o consentimento de Vênus - a Afrodite grega - mãe de Enéas. Como na Eneida, em A tempestade Juno também vem abençoar o casal reunido pela tempestade. Ela está acompanhada nesta benção de sua irmã Ceres que outro personagem não é que uma metamorfose de Ariel.
            Relendo a Eneida reparei que as tempestades estão aí sempre presentes, levando os desventurados companheiros de Enéas de um lugar para outro em suas casquinhas de noz. Prófugos da derrotada Ilion e na busca de concretizar o grande vaticínio de alcançar a Hespéria e conquistar a Itália, Enéas vagueia com seu pai de um lugar para outro até que o vaticínio seja mais claramente entendido. Enquanto não entendem corretamente o recado divino, eles vão fundando cidades, mais ou menos como o movimento conhecido por nós como Entradas e Bandeiras: a cada vez que a Entrada precisava demorar-se um pouco mais no acampamento esperando o tempo necessário para plantar e colher, aí ficava uma pequena povoação. Andam assim até aportarem na cidade de Tiro onde reina a Rainha Dido.
            É aí que Vênus, preocupada com a segurança de seu filho Enéas, pede a seu outro filho, Cupido, este que se vê multiplicado na tapeçaria atribuída a M.I. Corneille, que se metamorfoseie em Iulo, o filho de Enéas, para melhor inspirar em Dido o fogo secreto do desejo.  Preocupações maternas à parte, é por demais evidente aqui o gosto da mãe de Enéas em ver seu neto confundido com seu filho, como se se tratasse de um filho comum.
       Enquanto em A Tempestade é Ariel que move os ventos, ao comando de Próspero, na Eneida é o próprio Zéfiro a provocar a tempestade comandado por Juno.
         São muitos os elementos comuns. Em determinado momento de A tempestade, Antonio, o usurpador do Duque de Milão, e Sebastião, o irmão do Rei de Nápoles, falam - ainda que chistosamente - da viúva Dido e do viúvo Enéas. E por quê? – Vejo aí a assinatura de confissão de Shakespeare.
        Embora Bloom veja em A tempestade um romance, não vejo porque não entende-la também como uma comédia! Se a relação da Tragédia clássica com a Comédia tem a ver com a morte, na medida em que na tragédia grega a morte é para sempre e na Comédia, na Divina Comédia de Dante Alighieri, por exemplo, é apenas um outro momento da vida, então em A tempestade temos exatamente isto. O que parecia morte não era exatamente morte, apenas uma... comédia. E depois podíamos pensar também que assim como Virgílio escreve a Eneida em busca de uma nobre genealogia para os Césares de Roma (é de Iulo que irá sair o título de Júlio), Próspero quer também, através de Ferdinando, uma genealogia nobre para sua descendência. Afinal estamos na Itália, o país prometido a Enéas, o que fracassou na defesa de Ilion. Fracassado na guerra de Tróia Enéas se torna, com Virgilio, a origem genealógica do ascendente império romano.
            É disto que Freud nos fala quando aborda a questão do romance familiar. Através desse fantasma ele alude a uma tendência muito comum na puberdade de imaginar-se filho adotivo e que seus verdadeiros pais, na verdade reis e rainhas, tiveram de abandoná-lo pelos mais diversos motivos.
            Mas não posso terminar sem mencionar uma derradeira característica presente tanto na Eneida quanto em A Tempestade, aliás a mesma característica presente no terceiro texto que serei levado a explorar. Refiro-me à importância dada aos sonhos. Na Eneida eles aparecem a cada tanto e sempre indicam presságios. Em A Tempestade, em determinado momento da Cena I do Quarto Ato, Próspero diz que Nós somos esta matéria de que se fabricam os sonhos. E em seguida acrescenta: Nossas vidas pequenas têm por acabamento o sono, este sono que em Hamlet é uma alternativa para a morte.
            Pois foi este recurso ao sonho que me deixou boquiaberto quando me encontrei com Gilgamesh, o Rei de Uruk. Trata-se de um épico sumério, anônimo, escrito há cerca de cinco mil anos e considerado o texto mais antigo de nossa civilização. A versão que chegou até nós foi encontrada na biblioteca de Assurbanipal que mandou traduzi-la para o assírio. Ela ocupa uma dúzia de plaquetas de argila e está cunhada com caracteres cuneiformes.
            A história se passa no espaço entre duas viagens. Gilgamesh, assim como Henry Miller, acabara de voltar de uma grande viagem e está meio p’ra baixo. Ele tem então um sonho e o leva para ser interpretado por sua mãe a qual, do mesmo modo que a mãe de Enéas, é também uma deusa. Na sua interpretação ela diz nada menos que isto: que ele vai encontrar um companheiro, muito forte, e que irá amá-lo como a uma mulher. E assim vai andando a história. Nos momentos cruciais aparece um sonho e sua respectiva interpretação. É com este recurso técnico que seu autor, cinco mil anos atrás, consegue levar adiante sua história. E o sonho se realiza: Gilgamesh encontra seu amigo Enkidu, vivem juntos muitas aventuras até que Enkidu morre. No enterro de Enkidu, Gilgamesh, dolorido, faz uma oração fúnebre que bem poderia ter inspirado aquela comovida e comovente oração que ouvimos em Quatro casamentos e um funeral. Inconformado com a morte, Gilgamesh não quer morrer e sai em busca da vida eterna. Nesta busca descobre que os escolhidos sobreviventes do dilúvio haviam se tornado imortais e detinham o conhecimento da vida eterna. Dando provas de imensa coragem e denodo Gilgamesh chega até Utnapishtim, o Longínquo, de quem recebe o segredo dos deuses. Para viver eternamente era preciso colher uma planta que vivia nas profundezas, sob a água, uma planta que machucava a mão de quem a pegava e depois tomar uma espécie de chá feito com a tal planta. Gilgamesh fez mais este impossível, apanhou a planta e, em seu regresso, num momento de vacilação, entra em cena uma cobra que come a planta, troca de pele na mesma hora e sai imediatamente de cena. Depois disso, só restou a Gilgamesh morrer.
            Obrigado.
Porto Alegre, 05 de novembro de 2004.

*    Apresentado à Mesa: Psicanálise e Literatura: A viagem dos homens. Porto Alegre, Feira do Livro, 06 de novembro de 2004.
[1] FREUD, S. Escritores criativos e devaneios (1907). Rio de Janeiro, Imago, Ed. Std. Brás. Das Obras Psicológicas Completas de S. Freud., vol. IX, 1976, p. 157.

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