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AS VIAGENS
DOS HOMENS
AS CONSEQUÊNCIAS DO FRACASSO*
por
Luiz-Olyntho Telles da
Silva
W.J.M. Turner:
Dido construindo Cartago, 1815.
Pus meu sonho
num navio
e o navio
em cima do mar;
- depois,
abri o mar com as mãos
para
meu sonho naufragar.
CECÍLIA
MEIRELLES
O
que é passado é prólogo.
W. SHAKESPEARE
Rain
drops keep falling on my head.
B. J.
THOMAS
Senhoras e senhores
Viajar é preciso. É provável que
não haja nada mais presente na vida dos homens do que as viagens. Conversando
com um colega, dia desses, ele me dizia de sua preocupação com as viagens,
cada vez mais perigosas, cada vez mais mortais. As pessoas saem para as
estradas para se matar, me dizia ele. Acho que é verdade, pois se não saem
para se matar, certamente saem para conviver com a morte. Trágico, mas
verdadeiro!
Vou tentar falar-lhes disso e, claro,
vou tentar falar disso desde este nosso cenário. Refiro-me a esta mesa
à qual fui gentilmente convidado a participar. Uma mesa de poetas e psicanalistas.
Isto implica que devo falar-lhes
da temeridade. Os poetas são os temerários que sempre andam na frente.
Lacan, falando de Marguerite Duras, diz isso claramente: os poetas, os
artistas em geral, andam sempre na frente. E, depois, os homens de ciência
vem logo atrás – incluídos aí também os Psicanalistas –, aproveitando os
resultados desse enfrentamento na tentativa de clarear, de melhor dizer
dos meandros de suas disciplinas. Assim, por exemplo, o Físico Murray Gell-Mann
que retira do capítulo XII do Finnegans Wake, de James Joyce, a
palavra quark para com ela batizar uma partícula subatômica
constituinte da matéria.
E se devo falar-lhes de temeridade,
observem só como é interessante essa palavra: em geral os temerários, os
que praticam a temeridade, são conceituados pelos dicionários como aqueles
que desconhecem o medo, audaciosos que cometem atos imprudentes. Mas na
minha opinião não é bem assim que as coisas se passam. Vejam que tanto
o substantivo temeridade como o adjetivo temerário
começam pelo temor. Quer dizer, se
os poetas andam na frente, na frente dos poetas temerários anda o temor.
E, como todos os que temem, tomam lá, cada um, suas melhores providências
para esconjurar esse medo. Quero dizer com isso que o poeta inegavelmente
pergunta pelo que o aguarda na obscuridade do caminho, pergunta pela noite,
pergunta pelo futuro. Feita a pergunta nada mais lhe resta a não ser inventar
uma resposta. Sim, inventar! E, claro, contar com a luz da manhã.
Como dizia Gustav Mahler, O criador é um arqueiro que dispara
na escuridão. E isso, lhes asseguro, é o melhor que podemos fazer.
O resultado das invenções são benéficos para seu autor e, em geral, importantes
transcendências fantasmáticas para sua comunidade, algumas vezes para
o mundo como um todo – deturpações à parte.
Quando o homem de Altamira, um artista
rupestre, desenha os bisontes na parede da sua grande sala
sendo mortos por suas azagaias, ele está pondo em ação sua invenção
para esconjurar as dificuldades de seu caminho para o futuro. E eu lhes
pergunto: parece-lhes demasiado dizer que se estamos aqui,
hoje, é graças a alguém, quatorze mil anos atrás, ter visto valor em exorcizar
o que ainda não aconteceu?
Recentemente, embora já há alguns
anos, tive o privilégio de ler os originais de um romance de uma menina
de doze anos. Nele, ela contava a história de uma mocinha que aos trezes
anos foge de casa, tem uma paixão distante por um escritor mais velho,
bem mais velho, e dorme na praia, na Bahia, de mãos dadas com um amigo,
entre outras peripécias. Não preciso lhes dizer que a estou comparando
com o artista de Altamira. Mas, se ambos dizem de suas fantasias para
com o futuro, posso lhe dizer que a jovem autora não fugiu de casa aos
13, nem aos 15; pelo contrário, vive muito bem com seus pais e amigos,
embora já não se possa negar sua grande independência. As suas inquietações
não são diferentes das que aparecem em Collodi, Mark Twain, Nabokow e
mesmo nas Aventuras de uma negrinha que procurava Deus, de Bernard
Shaw. Estimo que ter escrito de modo dramatizado sobre suas fantasias
deve tê-la ajudado a ser quem hoje é.
E isso é falar de viagens? Por quê
não? Talvez pudéssemos falar mesmo da viagem entre o ge e o jota.
Pois não é interessante que viagem se escreva com ge e viajante com jota?
Talvez me digam que para isso já seria preciso um pouco mais de maionese,
não é mesmo? Em fim, o que é mesmo que define uma viagem? Ir de um lugar
a outro. Basicamente é isso. Se vamos a pé, com o Grêmio, de balão através
da África, com Júlio Verne desde Madagascar até sermos arrastados por um
rinoceronte para dentro do Lago Vitória, de carroça, em direção ao oeste,
de ônibus, junto com o destino, se nossa odisséia é pelos mares de Ítaca
ou pelo espaço, com Kulbrick, com o May Flower ou com alucinógenos,
etc., etc., etc., já será outra história. Afinal, como diz Lupicínio Rodrigues:
o pensamento parece uma
coisa à-toa,
mas como é que agente voa
quando começa a pensar.
A verdade é que nós, brasileiros, assim
como todos os americanos, temos uma história que começa com grandes
viagens, seja a dos nômades que deram a volta desde a Ásia passando pelo
estreito de Behring até as nossas plagas, seja a das grandes navegações
de Vasco da Gama, Colombo e Cabral.
Camões cantou as viagens dos portugueses.
Vasco da Gama era o herói do momento, equiparado nos Lusíadas a
Enéas.
Colombo não começou descobrindo a América. Começou como grumete, e
nas suas horas de folga lia o relato das viagens de Marco Pólo ao oriente,
nos fins do século XIII. Interessante que as grandes aventuras de Marco
Pólo, iniciada aos 17 anos de idade, talvez por ser filho de navegadores,
termina na prisão. Se lhes parece pouca a idade para viajar, lembremos
que é com a mesma idade que Auguste de Saint-Hilaire viaja para o Brasil
em busca de nossa flora. Era a idade, a época, em que se começava.
Nas suas pesquisas de campo, Saint-Hilaire sofre um envenenamento com
mel de Lechiguanas (uma vespa hoje mais conhecida como enxuí)
e sua longa recuperação lhe dá muito tempo para pensar e organizar suas
descobertas. Já as viagens de Marco Pólo levam-no, enquanto veneziano,
à prisão de Gênova. É aí que ele dita a seu companheiro de cela, Rustichello,
as memórias de suas viagens. De modo que Colombo não ignora, de modo nenhum,
as desventuras das viagens. Pode-se dizer mesmo que os percalços das viagens
aguçam sua curiosidade. O temor aparece intimamente relacionado ao desejo.
Se depois Colombo imagina haver encontrado o Paraíso, isto só mostra o
quanto as viagens e os sonhos andam juntos.
A carta
de Caminha, revelando à Europa o dealbar de nossa terra, revela também
uma imagem paradisíaca. Essa idéia de encontrar o paraíso, não é rara:
um amigo que voltou nesta semana da Chapada dos Guimarães, em Goiânia,
me descreveu a mesma coisa, um Paraíso! E as queimadas que o cercam...
um inferno.
Mas
é isso, busca-se o Paraíso. Dê-se o nome que se der, Céu, Walhala, Campos
Elíseos, busca-se o Paraíso. Os egípcios tinham mesmo um mapa para chegar
lá. Não se enterrava um faraó sem que nas paredes da grande sala da pirâmide
estivesse inscrito o Livro dos Mortos, no bem humorado dizer de
Freud, o primeiro Baedecker, o primeiro guia de viagens.
Aproveito
para justificar a chistosa viagem entre o ge e o jota. A
etimologia de viagem nos remonta a viaticum, que dá para nós,
em português, o conhecido viático, este farnel, a galinha com farofa
que o viajante leva para agüentar a viagem. Mas viático é também o Sacramento
da Eucaristia administrado aos enfermos impossibilitados de sair de casa.
Isso me faz pensar que aos viajantes, os que saem de casa, lhes interessa
cuidar não só da barriga mas também da alma. É preciso, desde sempre,
recomendar-se aos bons espíritos. Não se pode sair de casa sem um bom
viático.
Agamêmnon
está em Áulis, pronto para partir contra Tróia com sua frota, mas
não há vento. Calcas, o adivinho de plantão lhe diz que para haver vento
é preciso antes imolar sua filha Ifigênia em homenagem à Ártemis. Se
com Cristo no barco tudo vai muito bem, sem a benção dos
deuses parece que nada é possível.
Entre
as viagens desses gregos - que para alguns não passaram de delinqüentes
-, destaca-se a de Ulisses. A viagem de Ulisses torna-se o modelo d’A
viagem. Seja o interminável retorno de Odisseu, como não deixava
de suspirar Penélope, conforme nos conta Homero no século IX a.C., em sua
Odisséia, seja no passeio de um dia de Leopold Bloom pela
cidade de Dublin, em 16 de junho de 1904, no romance do escritor irlandês
James Joyce.
Interessante
notar que na mesma época em que Ulisses passeava pelo Mediterrâneo, entre
1250 e 1230 a.C., Moisés vagava pelo deserto, não muito distante dali,
em busca da prometida Canaã. Se ele fracassa ante as portas, sabemos contudo
do que resultou seu Êxodo para todo um povo.
Certamente
que a viagem de Ulisses também não é plena de sucesso. A Odisséia,
a história de Odisseu, é plena de dificuldades: as sereias, Circe, Polifemo,
etc. E se ele escapa de todas as dificuldades e não vai para a cadeia,
como Marco Pólo, ao chegar em casa se atormenta com a dúvida a respeito
da fidelidade de sua mulher. Calipso o detivera tempo demais! Os insucessos,
os tormentos, são sempre os melhores argumentos da literatura. O happy
end é apenas uma de suas tendências, correlata ao Paraíso. Se temos
de morrer, que seja da melhor maneira. Não é o que diz Shakespeare?
Bem está o que bem acaba.
A literatura
sobre viagens atingiu um grau tal de importância e divulgação no
século XVII, que Jonathan Swift escreveu o seu famoso Viagens de Gulliver
para ridicularizá-las. Mas a verdade é que, enquanto mostra os homens
ora vistos como muito pequenos, ora muito grandes, ora como imortais ou
vivendo em uma comunidade formada apenas de intelectuais, ou ainda comparando
o homem a cavalos dotados de razão que tratam os yahoos como
cachorros, ele vai dizendo das diversas facetas do homem, abrindo caminho
para uma visão do interior do homem.
Esse
sempre me pareceu o aspecto mais importante da literatura de viagens,
a possibilidade de melhor conhecer o homem, pois, afinal, o que ele nos
conta deve ser o que tem dentro de si. As viagens obrigam o homem a se reorganizar
internamente. Depois de viver dez anos fora dos Estados Unidos, Henry
Miller passa um certo tempo viajando de carro pelo país. Inconformado
com o que vê ele publica Air-Conditioned Nightmare para poder conviver
com o pesadelo.
Em viagem,
o homem está sempre exposto, mais vulnerável e esta sua característica
da vulnerabilidade aos imprevistos, às intempéries, sempre me deixa
muito comovido.
Por
isso pensei em falar-lhes de Shakespeare, pois ele é mestre em colocar
o homem frente ao imprevisto. Cheguei a pensar em falar-lhes da comédia
d’O Mercador de Veneza, pois sempre desconfiei que algo deve ter
a ver com Marco Pólo. Poderia falar-lhes de seu grande personagem, Shylock,
o judeu avarento que nos ajuda a pensar sobre os custos de uma viagem. Sim,
viajar é preciso, mas quanto custa?
Meu
grande sonho - perdidas as ilusões, já posso lhes confessar -, era
fazer uma circunvolução do Mediterrâneo junto com meus filhos. Queria
ver com eles os lugares por onde passou Europa em sua fuga de Zeus; fazer,
de barco, a travessia que ela fez a nado; cruzar o Estreito de Bósforo,
que outra coisa não quer dizer que passagem de vaca. Foi por aí que
Europa passou de volta à Ásia Menor. Aliás, por falar em passagem de vaca,
Oxford, na Inglaterra, onde está a grande Universidade,
quer dizer a mesma coisa. Começamos por seguir os animais. Nós os adorávamos
enquanto a ciência não nos ajudava a entende-los. O touro, o grande El,
gerador do hebraico Eli, foi adorado por vários
povos da antiguidade, pelo menos até serem proibidos por Moisés. Mas
como as coisas não deixam de existir de uma hora para outra, ainda mais
por decreto, há quem veja nos encaracolados cabelos do Moisés esculpido
por Miguel Ângelo, uma reminiscência dos adorados chifres, mesmo embora
Freud não os tenha visto. Hoje não mais adoramos esses animais, nós os
tememos: de objetos adorados passaram a objetos fóbicos. A primeira letra
do alfabeto fenício, o Aleph, retrata uma cabeça de vaca. Se virarmos
o nosso A maiúsculo de cabeça para baixo, ainda poderemos ver aí a antiga
cabeça de vaca inspiradora do Aleph. Europa mediante. Cabeza de Vaca,
lembremos ainda, é também o nome de um grande viajante europeu andando
pelas Américas logo das descobertas.
A viagens
são mesmo perigosas. Europa não voltava para casa, e seu pai, Agenor,
preocupado, envia os outros filhos em sua procura. Entre eles, Cadmo que,
tal qual os outros dois irmãos, já não consegue encontrar a irmã e
termina, como conseqüência de seu fracasso, por fundar a cidade de Tebas.
Descendente de Cadmo será Édipo, cuja tragédia servirá a Freud como modelo
das relações entre pais e filhos, pois ele vê nos mitos vestígios distorcidos
de fantasias plenas de desejos de nações inteiras.1
Estas
são algumas das coisas que Shylock me faz pensar quando pede como ágio
uma libra de carne do Mercador de Veneza.
Mas
a peça que escolhi para lhes falar foi A Tempestade, a última
escrita apenas por Shakespeare, antes de associar-se a John Fletcher.
Um romance.
Escolhi-a
por diversos motivos. Um deles, para não dizer que foi o primeiro, foi
o fato de Shakespeare colocar seus personagens na chuva e, vocês sabem,
quem vai à chuva é para se molhar! Quero crer que a tempestade é um recurso
utilizado para provocar a vulnerabilidade dos personagens. Outro motivo
de minha escolha pode ter sido o fato de que recentemente me deparei, absolutamente
por acaso, com um outro texto que provavelmente tenha servido de inspiração
ao Bardo. E por fim, porque nesta comparação entre os textos sou levado
a um terceiro texto que muito me surpreende por sua clareza ao mostrar
o homem em busca de si mesmo, debatendo-se com a morte.
Antes
de seguir, porém, um esclarecimento. Não sou um especialista em Shakespeare,
como de resto, não sou um especialista em nada. A Psicanálise não é,
a despeito de muitos assim o pensarem, não é, repito, uma especialidade.
O compromisso do Psicanalista é o de ler e analisar aquilo que se lhe apresenta
e esta é a tarefa a que me proponho. No livro que recentemente publiquei,
com o singelo título de Leituras, é a isso que me proponho. Ler
aquilo que se me apresenta desde esse viés. O fato de ele estar catalogado
como Crítica Literária não é de minha responsabilidade. Digo-lhes
isso porque Harold Bloom sim é um Crítico e especialista em Shakespeare.
É dele que tomo as referências para classificar A Tempestade
como um romance e O Mercador de Veneza como uma comédia. Outra coisa
a me chamar à atenção, é que Bloom pouco sai de Shakespeare na busca de
fundamentos para suas peças. Assim, para fundamentar o tema de A Tempestade,
ele recorre praticamente apenas ao Doutor Fausto, de Marlowe.
Pois
bem, embora os senhores provavelmente já conheçam a peça, conto-lhes
brevemente seu enredo para maquiavelicamente justificar meus fins: Viajam
em um navio o Rei de Nápoles com sua comitiva, irmão, filho e conselheiro,
mais Antonio que se fez Duque de Milão usurpando o ducado de seu irmão quando,
de repente, o barco é sacudido por uma grande tempestade e afunda. Logo
adiante fica claro para o espectador que o que parecia um terrível naufrágio
não passou de um lance de mágica ordenado por Próspero, o verdadeiro
Duque de Milão, exilado nesta ilha em que faz chegar suavemente o navio
com a eminente tripulação. Os náufragos, contudo, não se dão conta e agradecem
aos céus por sua rara sorte.
A grande
mágica é possível graças à interferência de Ariel, um Espírito etéreo
sob as ordens de Próspero. É aí que Bloom o compara com o Fausto que vende
sua alma ao diabo para ter controle sobre as forças da natureza. Exilado
nessa ilha, em companhia de sua filha Miranda, Próspero se dedica, como
Fausto, aos estudos esotéricos. O que ele busca com isso é aproximar sua
filha de Ferdinando, o filho do Rei de Nápoles, casá-los e assim retomar
o ducado de Milão. Isto tudo com a ajuda de Ariel e Caliban, um monstrengo
filho de uma bruxa.
O outro
texto com o qual me deparei, quase ao acaso, foi a Eneida de
Virgílio. O vínculo entre uma e outra me foi de certo modo assoprado
por minha mulher, quando examinávamos, admirados, no nosso MARGS, as
maravilhosas tapeçarias do Petit Palais, de Paris, ao nos deparamos
com o deslumbrante Dido e Enéas surpreendidos pela tempestade.
Foi aí, quando Maria da Glória chamou minha atenção para a delicadeza
das gotas de chuva, as poéticas rain drops, que as tempestades
começaram a se aproximar.
A tempestade
que obriga a Rainha Dido e Enéas a se abrigarem em uma caverna foi
obra de Juno, protetora de Dido, com o consentimento de Vênus - a Afrodite
grega -, mãe de Enéas. Como na Eneida, em A tempestade
Juno também vem abençoar o casal reunido pela tempestade. Ela está acompanhada
nessa benção de sua irmã Ceres que outro personagem não é que uma metamorfose
de Ariel.
Relendo a Eneida,
reparei que as tempestades estão aí sempre presentes, levando os desventurados
companheiros de Enéas de um lugar para outro em suas casquinhas de noz.
Prófugos da derrotada Ilion e na busca de concretizar o grande vaticínio
de alcançar a Hespéria e conquistar a Itália, Enéas vagueia com seu pai
de um lugar para outro até que o vaticínio seja mais claramente entendido.
Enquanto não entendem corretamente o recado divino, eles vão fundando
cidades, mais ou menos como o movimento conhecido por nós como Entradas
e Bandeiras: a cada vez que a Entrada precisava demorar-se um pouco mais
no acampamento, esperando o tempo necessário para plantar e colher, aí ficava
uma pequena povoação. Andam assim até aportarem na cidade de Tiro onde reina
a Rainha Dido.
É aí
que Vênus, preocupada com a segurança de seu filho Enéas, pede a seu
outro filho, Cupido, este que se vê multiplicado na tapeçaria atribuída
a M.I. Corneille, e que se metamorfoseia em Iulo, o filho de Enéas, para
melhor inspirar em Dido o fogo secreto do desejo. Preocupações maternas
a parte, é por demais evidente aqui o gosto da mãe de Enéas em ver seu
neto confundido com seu filho, como se se tratasse de um filho comum.
Enquanto
em A Tempestade é Ariel que move os ventos, ao comando de Próspero,
na Eneida é o próprio Zéfiro a provocar a tempestade, comandado
por Juno.
São
muitos os elementos comuns. Em determinado momento de A tempestade,
Antonio, o usurpador do Duque de Milão, e Sebastião, o irmão do Rei de
Nápoles, falam - ainda que chistosamente - da viúva Dido e do viúvo Enéas.
E por quê? – Vejo aí a assinatura de confissão de Shakespeare.
Embora Bloom veja em A tempestade
um romance, não vejo porque não entende-la também como uma comédia!
Se a relação da Tragédia clássica com a Comédia tem a ver com a morte,
na medida em que na tragédia grega a morte é para sempre e na Comédia, na
Divina Comédia de Dante Alighieri, por exemplo, é apenas
um outro momento da vida, então em A tempestade temos exatamente
isto. O que parecia morte não era exatamente morte, apenas uma... comédia.
E, depois, podíamos pensar também que assim como Virgílio escreve a Eneida
em busca de uma nobre genealogia para os Césares de Roma (é de Iulo que
irá sair o título de Júlio), Próspero quer também, através de Ferdinando,
uma genealogia nobre para sua descendência. Afinal estamos na Itália, o
país prometido a Enéas, o que fracassou na defesa de Ilion. Fracassado
na guerra de Tróia Enéas se torna, com Virgilio, a origem genealógica do
ascendente império romano.
É disto que Freud nos fala quando
aborda a questão do romance familiar. Através desse fantasma ele
alude a uma tendência muito comum na puberdade de imaginar-se filho adotivo,
e que seus verdadeiros pais, na verdade reis e rainhas, tiveram de abandoná-lo
pelos mais diversos motivos.
Mas não posso terminar sem mencionar
uma derradeira característica presente tanto na Eneida quanto
em A Tempestade, aliás a mesma característica presente
no terceiro texto que serei levado a explorar. Refiro-me à importância
dada aos sonhos. Na Eneida eles aparecem a cada tanto e sempre indicam
presságios. Em A Tempestade, em determinado momento da Cena I do
Quarto Ato, Próspero diz que Nós somos esta matéria de que se
fabricam os sonhos. E em seguida acrescenta: Nossas vidas
pequenas têm por acabamento o sono, este sono que em Hamlet é uma alternativa
para a morte.
Pois foi esse recurso ao sonho que
me deixou boquiaberto quando me encontrei com Gilgamesh, o Rei de
Uruk. Trata-se de um épico sumério, anônimo, escrito há cerca de cinco
mil anos e considerado o texto mais antigo de nossa civilização. A versão
que chegou até nós foi encontrada na biblioteca de Assurbanipal que mandou
traduzi-la para o assírio. Ela ocupa uma dúzia de plaquetas de argila
e está cunhada com caracteres cuneiformes.
A história se passa no espaço entre
duas viagens. Gilgamesh, assim como Henry Miller, acabara de voltar de
uma grande viagem e está meio p’ra baixo. Ele tem então um sonho e o
leva para ser interpretado por sua mãe a qual, do mesmo modo que a mãe
de Enéas, é também uma deusa. Na sua interpretação, ela diz nada menos
que isto: que ele vai encontrar um companheiro, muito forte, e que irá amá-lo
como a uma mulher. E assim vai andando a história. Nos momentos cruciais
aparece um sonho e sua respectiva interpretação. É com este recurso técnico
que seu autor, cinco mil anos atrás, consegue levar adiante sua história.
E o sonho se realiza: Gilgamesh encontra seu amigo Enkidu, vivem juntos
muitas aventuras até que Enkidu morre. No enterro de Enkidu, Gilgamesh, dolorido,
faz uma oração fúnebre que bem poderia ter inspirado aquela comovida e
comovente oração que ouvimos em Quatro casamentos e um funeral.
Inconformado com a morte, Gilgamesh não quer morrer e sai em busca da
vida eterna. Nessa busca descobre que os escolhidos sobreviventes do dilúvio
haviam se tornado imortais e detinham o conhecimento da vida eterna. Dando
provas de imensa coragem e denodo, Gilgamesh chega até Utnapishtim, o Longínquo,
de quem recebe o segredo dos deuses. Para viver eternamente era preciso
colher uma planta que vivia nas profundezas, sob a água, uma planta que
machucava a mão de quem a pegava, e depois tomar uma espécie de chá feito
com a tal planta. Gilgamesh fez mais este impossível, apanhou a planta e,
em seu regresso, num momento de vacilação, entra em cena uma cobra que come
a planta, troca de pele na mesma hora e sai imediatamente de cena. Depois
disso, só restou a Gilgamesh morrer.
Obrigado.
Porto Alegre, 05 de novembro de
2004
* Apresentado
à Mesa: Psicanálise e Literatura: A viagem dos homens. Porto Alegre,
Feira do Livro, 06 de novembro de 2004.
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FORTUNA CRÍTICA:
Dulcinea Santos:
Li A Viagem dos Homens e acho muito bacana seu modo de escrever
correndo pelos meandros da lógica poética! Da temeridade ao temor à obscuridade
e à escuridão anunciando a claridade da manhã, e aí o homem de Altamira e
o sonho da menina, e uma viagem alvissareira pelas letras G e J,
de Je, o sujeito viajante, e muitas viagens pela Literatura,
e vem o G à cura da alma e As viagens de G.ulliver (comentário
traçado com exímia concisão), as peripécias da vida. Desde a temeridade
ao imprevisto com Shakespeare e aí o sonho da viagem com os filhos e o que
teria sensível acento nesse percurso: Bósforo, Europa, e a evocação
à vaca fornece uma chave: há na palavra o fonema /c/, uma oclusiva velar
surda, o avesso do /g/, uma oclusiva velar sonora, que
assim seguiriam seu curso, a viagem: vaca » vaga » vacância
» El, gerador dos hebraicos, o touro sagrado. Adoração e temor.
Uma viagem perigosa via Shakespeare: Quero crer que a tempestade é um
recurso utilizado para provocar a vulnerabilidade dos personagens. Outro
motivo de minha escolha pode ter sido o fato de que recentemente me deparei,
absolutamente por acaso, com um outro texto que provavelmente tenha servido
de inspiração ao Bardo. E por fim, porque nesta comparação
entre os textos sou levado a um terceiro texto que muito me surpreende por
sua clareza ao mostrar o homem em busca de si mesmo, debatendo-se com a
morte. E vem o G, em Glória, referindo a delicadeza
poética das gotas da chuva que caem seguida de J.uno abençoando o
casal reunido pela tempestade, e vem Enéas vagueando com seu pai de um
lugar para outro até que o vaticínio seja mais claramente entendido
com Gilgamesh, o Rei de Uruk, e o sonho se realiza: G.ilgamesh
chega até Utnapishtim, o Longínquo, de quem recebe o segredo dos deuses.
Assim, esquadrinhando os fatos, investigando as palavras, tentando delas
retirar aquilo sobre o qual discorrem, esse é seu jeito de escrever do qual
muito gosto.
Recife, 24 de novembro de 2010.
1. FREUD, S. Escritores criativos e devaneios (1907). Rio de Janeiro,
Imago, Ed. Std. Brás. Das Obras Psicológicas Completas de S. Freud.,
vol. IX, 1976, p. 157.
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