Hoje,
13 de junho, é dia de Santo Antônio, por coincidência
o santo padroeiro desta Bento Gonçalves, cidade que acolhe as Jornadas
Internas do Recorte de Psicanálise. E porque já há
algum tempo aprendi a não desconsiderar a insistência do significante
(a data desta jornada foi praticamente decidida pelas possibilidades deste
Hotel, pois nós teríamos preferido realizá-la duas
semanas antes), resolvi acompanhar um pouco os desdobramentos da data...
Memora-se nesta data o precoce passamento de Santo Antônio,
um mês antes de completar seu trigésimo sétimo natalício,
no ano de 1231. Suponho que a esta hora as solteiras já terão
rezado o responso de Santo Antônio e logo este lhes ajudará a
achar o noivo desejado. Pois a mim também não me parece mal
invocá-lo nesta hora. Afinal, antes de começar a ajudar a solteiras
a encontrar marido, Santo Antônio era invocado pelos fiéis sempre
que um objeto era perdido. Os que estão mais adentrados no campo
da psicanálise já sabem qual a importância disto: Lacan,
com seu invento chamado “objeto pequeno a” destacou-o de modo
irretocável. Santo Antônio aparece assim como uma reencarnação
românica de Eros. Pois bem, mesmo sem querer avançar depressa
demais e com cuidado para não desviar demasiadamente do caminho, esta
associação de Eros com Santo Antônio - espero que não
me acusem de iconoclasta - pode nos ajudar a ler o símbolo lógico
de implicação colocado entre o sujeito e o objeto (por definição
perdido) na fórmula do fantasma.
Hoje, se avançarmos um pouco mais no tempo,
memora-se também o início da Insurreição Pernambucana,
ocorrida no ano de 1645, quando André Vidal de Negreiros, Felipe
Camarão, Henrique Dias e Fernandes Vieira insurgiram-se contra os
invasores holandeses comandados por Maurício de Nassau. Não
esqueçamos que Descartes lutou sob suas cores.
Avançamos mais um pouco, e no ano de 1763 assinalamos
também nesta data o nascimento de José Bonifácio que
depois veio a ter destacada atuação na independência
do Brasil. O colégio onde fiz o curso secundário levava seu
nome.
Hoje. Dia de lutadores, dia de fé. É
com estas palavras que quero começar, pois parecem indicadas para
falar também daquilo que é contemporâneo.
Hoje, há também um número tão
grande de analistas, que quase se poderia dizer que a psicanálise
conquistou a sociedade. Todos - sabem que quando digo
‘todos’ estou me referindo a um determinado universo - todos
conhecem algum psicanalista e muitos certamente contam com pelo menos um
em seu círculo de amizades.
Se se tratasse de um plano de conquista poderíamos,
ufanos, proclamar: vitória! E beijar a taça! - Quem não
sabia o que era o gosto de beijar a taça da vitória, ou já
não lembrava mais, teve no último domingo uma chance maravilhosa
proporcionada pelo Guga em Roland Garros. É um beijo assim que todos
Kuerten.
Mas nós sabemos que não se trata disto.
Não se trata de um plano de conquista. Aliás, o que seria 'conquistar
a sociedade'? - poderíamos perguntar!
Todos nós vimos o Guga conquistar
todo aquele imenso, sofisticado e educado público de Roland Garros.
Assistimos também pela TV ao entusiasmado público paulista
entregar-se alegremente ao Guga. Do mesmo modo assistimos a critica internacional
elogiando - entregando-se - a este nosso conterrâneo para quem o mais
difícil - ele nos confessou- é ter de falar. Cada um de nós,
a cada ace, a cada paralela, a cada voleio - a 190 km/h
- fomos nos deixando conquistar por sua garra e beijamos com ele a taça
da vitória. Poderíamos dizer o mesmo de Pelé, Cassius
Klay, Kasparov, Senna, Michel Jordan, Mozart, os Beatles, as meninas do basquete,
o Grêmio... Outros poderiam dizer Gengis Kahn, Assurbanibal, Alexandre...
Incluiriam talvez Santos Dumont, Bill Gates... Enfim, tantos outros nomes
que poderiam ser citados como conquistadores de sociedades. E não
vamos esquecer os já citados heróis da Insurreição
Pernambucana, conquistadores; nem tampouco de José Bonifácio,
o Patriarca da Independência.
E Santo Antônio?
Será também ele um conquistador? Já sabemos que ajuda
a conquistar corações! Os que se dedicam a estudar a vida dos
santos - os hagiólogos - saberão que teve uma luta destacada
contra os hereges. O Tribunal da Inquisição Pontifícia
foi instalado justamente no ano de sua morte. E entre os hereges contra os
quais esteve lutando, destacam-se os cátaros, estes cuja heresia
consistia em acreditar em um Deus feito de bondade e de maldade. Lacan os
menciona quando trata da Grimmigkeit, da maldade. Mas o que
nem sempre aparece na literatura é a carreira militar de Santo Antônio.
Conhecido por suas atividades religiosas na cidade italiana de Pádua,
era na verdade Lisboeta e nascera com o nome de Fernando. Quando entrou para
a ordem dos Franciscanos é que adotou o nome de Antônio em
homenagem a Santo Antão. De modo que é português. E
quando, no século XVII, durante a guerra da Restauração,
contra a Espanha, a vitória sorriu às armas lusas que haviam
invocado a ajuda do Santo, Dom Pedro II, como testemunho de gratidão,
baixou decreto nomeando Santo Antônio como soldado do 2º Regimento
de Infantaria. Anos mais tarde, reconhecida a mesquinhez do posto, o governo
português promoveu Santo Antônio a Capitão do Exército.
E a rainha Dona Maria I, em 1780, promoveu-o a general. No Brasil, herdeiro
das tradições portuguesas, em 26 de julho de 1814 Dom João
VI, na época Regente do Brasil, nomeou Santo Antônio para o
posto de tenente-coronel. Já em nossos dias, foi promovido a general
e transferido para a Reserva, conforme figura nos documentos de nosso Exército
Nacional, "depois de três séculos no serviço ativo do
Exército" (segundo um de seus biógrafos). Pois bem, que
me dizem? Vamos incluí-lo na lista dos conquistadores?
Como traço comum entre essas conquistas, pelo
menos entre as que arrolei de bom grado como conquistas de hoje - e acredito
que todos vamos estar de acordo com isto - está o fato de que elas
nos trazem felicidade. Os conquistados ficamos felizes.
Mas se com a Psicanálise não
estamos envolvidos em nenhum plano de felicidade, de liberação
mundial ou mesmo nacional, se nossa sigla não é PNL, isto
não quer dizer que estejamos contra a felicidade, nem mesmo que não
acreditemos nela! Como qualquer mortal, nós também a perseguimos.
Não creio que jamais tenham escutado falar de qualquer psicanalista
que advogasse a carranca; podemos até admirar as do rio São
Francisco, colecioná-las mesmo, mas nós não as construímos
nem fazemos seu elogio.
Quando Freud propõe a infelicidade
comum como meta da análise, ele a está propondo como porto
para aqueles que, insatisfeitos, querem partir de Miséria Neurótica.
Hoje, nós sabemos a importância
da infância para a vida adulta. Não creio que hoje em dia
alguém ainda coloque isto em dúvida. Quando Freud, porém,
disse isto, a cem anos atrás, chamando a atenção para
a importância da sexualidade infantil, quando ele disse que as teorias
sexuais construidas pelas crianças marcavam de modo indelével
o resto da vida do sujeito, ele foi rechaçado. Porque a verdade e
o saber não podem ocupar o mesmo espaço no discurso da universidade,
nem no discurso do amo, e nem mesmo no da histérica, a psicanálise
nascente foi marginalizada. Vocês sabem destas bruxas que vem ao berço
dos recém-nascidos fazer vaticínios, não é mesmo?!
Pois em seu berço, à Psicanálise, as bruxas adivinharam:
serás marginal!
Se Freud empenhou sua vida no aprofundamento da teoria
psicanalítica, na sua difusão e em defesa de seus conceitos,
isto nunca se deveu a algum afã em sair da marginalidade, em escapar
da profecia. Pelo contrário, quando se pronunciou sobre isto ele foi
enfático: quando a Psicanálise começa a ser muito aceita
pela sociedade, isto é sinal de que está perdendo o fio, de
que está deixando de ser cortante; o risco é que deixe de
ser Psicanálise!
Essa felicidade massiva cujo gosto
ainda hoje conservamos nos lábios, é resultado de uma identificação
e o seu preço a alienação. Mas também é
claro que todos temos direito ao domingo da vida.
O crescente interesse pela Psicanálise
e a proliferação de psicanalistas podem ter aspectos comuns,
mas certamente não são a mesma coisa.
Com interesse pela Psicanálise
quero me referir à busca feita por outras áreas de conhecimento
para incrementar seus próprios recursos. Não é demais
lembrar que para a Psicanálise, interesse é um conceito,
um conceito oposto justamente ao de egoísmo. É assim que
Freud se refere quando quer falar da pulsão de conservação
enquanto aplicada ao objeto. E a Psicanálise tem realmente proporcionado
enfoques inovadores a outras ciências, a outros ramos do conhecimento.
Quanto à proliferação
de psicanalistas, acredito ser necessário considerar pelo menos
duas vertentes: uma delas sem dúvida é a do interesse genuíno,
e a outra, pelo menos em nosso pais, se deve a um fracasso, é assim
que eu entendo esta proliferação tomada como sintoma, um
fracasso do sistema de ensino que, ao criticar o sistema de valores vigente,
critica possivelmente necessária, acabou ficando sem nenhuma estrutura
de valores, mais ou menos como o camelo que, de tanto querer chifres, acabou
perdendo as orelhas.
Senão, vejamos: quando prestamos nossa atenção
a produção destes [soi-disantes] analistas, não
é difícil ver que suas preocupações estão
dirigidas para o social. E essa certamente é uma preocupação,
enquanto preocupação social, legítima. Um amigo me
contava outro dia - aliás um amigo nascido aqui por perto, nestas
montanhas, o Prof. Lauro Wittmann - ele me contava que enquanto estava preparando
uma conferência para um público de seiscentas pessoas preocupadas,
lá em Santa Catarina, com a educação da infância
e da juventude, ele encontrou um dado estatístico que dizia que os
investimentos feitos pelo governo na área de segurança, da
ordem de algo como dois bilhões de dólares, poderiam equacionar
toda a questão da educação e dos sem terra de nosso
país, o que certamente diminuiria em muito os problemas de segurança.
São Paulo e Rio de Janeiro - vi outro dia na TV - tem cerca de 70
assassinatos cada uma, contra 14 de Nova York e 7 ou 9 de Londres. Esta mesma
notícia confirmava a informação que me havia sido passada
pelo Prof. Lauro: os investimentos do governo brasileiro na área
de segurança - dizia o noticiário - supera os investimentos
em educação e saúde somados.
Se vocês conseguem ficar insensíveis a
estes dados, eu lhes confesso: eu não consigo. E é justamente
isso que me permite entender porque muitos psicanalistas se dirigem para
o social. A Psicanálise tem mesmo algumas características
que parecem aproximá-la da Psicologia Social, mas não passa
de aparência, não é Psicologia Social. Tenhamos isso
claro. Mas se me sensibilizo tanto com isso - poderiam perguntar-me - por
quê é que eu mesmo não me dedico a isso? Não creio
que a resposta seja fácil. Mas não posso deixar de dizer que
em determinado momento de minha vida fiz uma opção, e a opção
pela Psicanálise levou-me a reconhecer a especificidade de cada campo.
Como disse o poeta Edmond Jabès: "A todo limite, seu ponto".
Não creio que os psicanalistas tenham que tomar
o lugar dos economistas, dos sociólogos, dos pedagogos, e nem mesmo
dos psicólogos. A Psicanálise não consta do campo das
ciências humanas. Não creio mesmo que tenham de assumir o lugar
dos políticos, dos governantes. Não se trata de dizer, enfim:
deixa que eu faço! Agora, quando os políticos,
os economistas, os sociólogos, etc., quiserem passar pelo processo
analítico, isto possivelmente não será sem conseqüências.
Falava-lhes da marginalidade da Psicanálise:
e quem não sabe que a marginalidade é um problema social?
Mas - é preciso que se diga - não se trata da mesma marginalidade.
Quando olhamos para as favelas, às margens das grandes cidades,
a enorme quantidade de antenas de televisão é o que logo nos
chama a atenção. - Roubadas? Pensarão logo
os ingênuos. Não sei, mas não é isso o que importa.
O que importa é que os valores dessa margem e desse texto são
os mesmos: todos assistem aos mesmos programas. Os aparelhos receptores
poderão ser mais ou menos sofisticados, mas as emissoras de TV são
extremamente democráticas: seus programas estão disponíveis
para todos. Quando o psicanalista se marginaliza, não é para
ter uma TV de menor qualidade, menos sofisticada, mas sim para poder ver
as coisas por outro ângulo, mais liberado das pressões do texto.
Assim que, quando Freud denuncia
a perversão polimorfa das crianças, ele pode fazer isto porque
consegue ver as coisas por outro ângulo, mais isento dos preconceitos
sociais. Tratava-se disso. Freud, inclusive, diz claramente que não
foi ele o responsável pela descoberta da importância da sexualidade.
Esta importância lhe foi comunicada por três pessoas merecedoras
de seu mais profundo respeito: Breuer, Charcot e Chrobak. O primeiro
deles contara-lhe, em uma conversa casual que a origem das doenças
nervosas das senhoras eram sempres secrets d'alcove, ou seja
que tinham a ver com o leito conjugal. Do segundo escutou, enquanto este
afirmava para Brouardel à propósito do caso de um jovem casal
do Oriente - a mulher, um caso de doença grave, o homem impotente ou
excessivamente desajeitado - que ... dans se cas pareils, c'est toujours
la chose génital, toujours... toujours... toujours, enquanto
saltitava animadamente na ponta dos pés, como era seu costume. A um
lado, Freud, paralisado, pensava: mas se ele sabe disso, porque não
diz nunca? De Chrobak, o eminente ginecologista, à propósito
de uma paciente que sofria de acessos de angústia sem sentido, escutou
que se tratava de uma virgo intacta depois de dezoito anos
de casamento com um marido impotente. E que nestes casos o único que
o médico podia fazer era resguardar a infelicidade doméstica
com sua própria reputação, tolerando que dissessem dele
que não conseguia curá-la, pois a única receita possível,
embora bastante familiar, não era possível prescrever, e anotou
no verso do receituário, não sem antes invocar a ajuda de Zeus,
o seguinte: "Penis normalis dosin repetatur!
O fato de nenhum de seus ilustres mestres haver reconhecido
a paternidade atribuída ajudou Freud a definir o inconsciente como
um saber que não se sabe. Nas suas palavras: o sujeito sabe,
mas como não sabe que sabe, pensa que não sabe! Breuer,
Charcot e Chrobak sabiam, mas como não sabiam que sabiam, pensavam
que não sabiam e, como consequência, posicionaram-se publicamente
como aquele que não sabe. É a isto que Freud chamava de inconsciente.
Protegido por uma camada de repressão, por uma camada de preconceitos,
poderíamos dizer - os quais supõe a presença do grande
Outro, do A maiúsculo - o sujeito não consegue dar um
estatuto de verdade àquilo que sabe. Preso aos preconceitos do texto
o sujeito não consegue ver as coisas por outro ângulo.
Manter-se prisioneiro destes preconceitos
é o preço que o sujeito paga para manter a ilusão de
ser amado por aqueles a quem atribui a posse do conceito. A isto chamo alienação.
- Para poder ver as coisas por outro ângulo, Freud, o psicanalista
enfim, paga com a marginalidade.
Não sei se ainda hoje será
possível imaginar o choque recebido pela cultura, mormente a Cartesiana,
da época, quando Freud privilegia, no aparelho psíquico, ao
inconsciente. Na sua leitura, o consciente passa a ser apenas a pequena ponta
externa do iceberg, enquanto sua maior massa, submersa,
representará o inconsciente dirigido pelas correntes marinhas, independentes
dos ventos de superfície que sopram sua parte externa. O homem deixa
de ser senhor de si mesmo. Espartacus estava enganado. O sujeito existe
onde não pensa, e pensa onde não existe. O sujeito passa a
ser excêntrico a si mesmo. Agora, o que não resta dúvida
é que ainda hoje este reconhecimento é difícil de tolerar.
A cultura contemporânea pressiona
em direção a hapiness, ao soft,
e tudo tem que ser bastante light! E essa pressão
toma a todos que querem estar, a todos que querem fazer parte do texto,
fazer parte do contexto, se assim dizendo lhes facilita a compreensão.
Não sei se será possível escutar o aprisionamento proporcionado
pela compreensão? Se de um lado a palavra representa a faculdade
de perceber, por outro, a lógica a caracteriza como o conjuntos dos
elementos pertencentes a um determinado conceito. Quer dizer, a compreensão
é um corolário da consciência. E isso poderia nos levar
a um paradoxo! Mas não se trata disto, mas sim de colocar cada coisa
em seu lugar. Enquanto construtores de teorias, os psicanalistas, como qualquer
homem de ciência, buscamos o rigor fornecido pela lógica. Foi
nestes termos que Lacan, em conferência pronunciada nos Estados Unidos,
lamentou não ser mais paranóico, porque a paranóia oferece
a possibilidade do rigor. Mas enquanto possibilitador da prática analítica,
precisa renunciar a compreensão, do mesmo modo que precisa renunciar
ao desejo de curar. Com toda sua paciência, Freud recomendava aos
analistas principiantes: não se apressem em curar, dediquem-se a
analisar; a cura, se ela vier, sobrevirá por acréscimo.
Junto com a hapiness,
o soft e o light, aparece o instantâneo
e tudo tem que ser quick, tudo tem que ser muito rápido!
Inclusive as psicoterapias. E as psicoterapias podem ser rápidas,
breves, como se diz, inclusive em seus resultados. Lacan diz - e eu subscrevo
- que as psicoterapias seriam ótimas se não levassem ao pior!
Por quê? Fundamentalmente porque se preocupam em curar o sintoma.
Lembram do ditado que reza: o que se escurraça pela porta entra
pela janela!? Pois é o que acontece com o sintoma; a diferença
é que, depois de simplesmente esbatido, ele retorna robustecido.
O processo psicanalítico não
pode se deixar submeter às pressões sociais de moda. As pressões
sociais buscam a uniformização. Se todos usam o mesmo tipo
de roupa isto facilita em muito sua fabricação, logo o preço
fica mais acessível, mais pessoas podem comprar e o fabricante tem
um lucro maior. Se o fabricante tem o monopólio, logo poderá
aumentar o preço, sob um pretexto qualquer, aumentando o lucro ao
custo da exploração, mas de uma exploração tão
pequena que o bolso quase nada sentirá! É assim que funciona.
Logo, se você não estiver contente com este jeito de ser, se
acreditar que seu tipo aparece melhor com outro desenho de roupa, precisará
procurar um alfaiate que também não tenha se submetido às
pressões sociais, e este será também um alfaiate marginal,
como será marginal o desenhista de jóias especiais, o escritor
da contracultura, o filósofo dos novos tempos.
Freud chamou de ambivalência ao fenômeno
que possibilita ao sujeito, por um lado, querer mudar e, por outro, fazer
todo o possível - de modo inconsciente - para continuar como está,
para manter o status quo. Manter o status quo significa
continuar a olhar a realidade sempre pela mesma janela, pela janela construída
pelos preconceitos - desnecessário dizer que se trata do preconceito
do Outro. E o sujeito se submete a isto para não perder o amor do
Outro. E é para manter as coisas deste modo que o sujeito resiste.
Mas enquanto Freud coloca a resistência do lado do analisante, Lacan,
seu leitor atento, irá colocá-la do lado do analista. E o
que é que ele quer dizer com isto? Sabemos que esteve bastante ocupado
em defender a psicanálise do edulcoramento proporcionado pelos analistas
que fizeram escola nos Estados Unidos. Sua ânsia de adaptação
ao american way of life havia tornado a psicanálise
aguada, cegando seu corte. Se uma análise não vai bem, a
responsabilidade é do analisante, diziam. E é mais ou menos
por aí que Lacan jacula: a resistência é do psicanalista.
Mas não podemos esquecer, contudo, que Lacan é francês...
Por quê não? Pois bem, quem não sabe o que a resistência
tem a ver com os franceses. Há mesmo uma expressão que junta
as duas palavras: resistência francesa! E nós sabemos o que
ela representou na segunda guerra mundial. Representou fundamentalmente um
esforço para a preservação das liberdades democráticas,
um esforço pela preservação dos valores conquistados
pelo homem. Assim que, quando Lacan diz que a resistência é
a do analista, penso que isto tem que ser tomado em consideração.
Lacan não apenas muda a posição da resistência
como também, muda seu sinal. O analista precisa resistir. O desejo
do analista consiste nisto, consiste em resistir a pressão social
para preservar o desejo de analisar.
Sua bênção Santo
Antônio.