Os riscos perseguem o homem por todas as partes: nas
estradas os acidentes são uma ameaça constante; sentado na
segurança do lar, uma bala perdida ou mesmo um avião pode invadir
a tranqüilidade. Poderá o homem livrar-se dos riscos? Dizem que
viver é correr riscos!
Correr risco! Claro, trata-se de uma
maneira de falar expressa através de uma conjunção.
Mas e se nós a considerar-mos através de uma disjunção,
onde correr consista em uma prótase, separada da apódose risco
por uma vírgula, o que acontece? Teremos então: Correr, risco!
Quer dizer, descarto a possibilidade de correr, o risco eu o enfrento ou,
pelo menos, o enfrento. Quer dizer, nas duas formas o sentido continua o
mesmo, evidenciando uma coisa que não se pode negar: é preciso
tomar o risco em consideração, quem sabe mesmo sujeitar-se a
ele.
A Laio, pai de Édipo, foi profetizado
que morreria nas mãos de seu próprio filho. Temeroso, Laio escondeu
este segredo de sua esposa Jocasta e cessou de ter relações
com ela. Eric Flaum, em sua The Encyclopedia of Mythology, diz que
ele stopped being intimate with her. Desconhecedora, inconsciente,
unaware desta profecia, Jocasta ficou muito chateada com seu
marido e embebedou-o, então, atraindo-o para deitar-se com ela. Flaum
usa aqui, para ‘deitar-se’, a expressão to lie a qual, na alíngua
inglesa, tem também o sentido de “mentira, engano, ilusão”.
Quando a criança nasceu, nove meses mais tarde, Laio prendeu juntos
os dois pés do recém-nascido e o abandonou para morrer.
A criança foi resgatada e adotada
pelo Rei corintiano Pólibo e por sua esposa Mérope. Quando
Édipo se tornou jovem e soube pelo oráculo que mataria seu
próprio pai, preferiu abandonar Corinto por temer o cumprimento da
profecia, pois não sabia, estava unaware, que Pólibo
não era seu verdadeiro pai.
Durante suas viagens Édipo encontrou
um cadmiano que o tratou muito rudemente e na luta que então travou,
Édipo terminou matando-o. Matou Laio e seu cocheiro, seu auriga, para
ser mais específico, unaware, inconsciente de que deste modo
cumpria a profecia.
Édipo chega então a Tebas
e aceita o desafio da Esfinge. Respondendo ao enigma ele a derrota e subseqüentemente
torna-se Rei de Tebas através do casamento com a recém viúva
Rainha Jocasta, enquanto todos os participantes da tragédia eram inconscientes
de que ela era sua verdadeira mãe.
A seguir uma praga abate-se sobre Tebas
e as consultas ao Oráculo de Delfos tornaram claro que a peste seria
erradicada somente quando o assassino de Laio fosse expulso. Édipo
jurou fazê-lo, obviando o fato de que ele mesmo era o culpado. As buscas
foram infrutíferas e Édipo consulta o vidente Tirésias
que finalmente revela a verdade da situação. Quando as últimas
peças do puzzle foram juntadas e todos se tornaram conscientes
da verdadeira identidade de Édipo, Jocasta comete suicídio e
Édipo cega a si mesmo.
Como puderam ver, a leitura de Eric Flaum não é
muito diferente das já conhecidas. Vale mais, talvez, pelas lindas
reproduções de Édipo e a Esfinge, de Ingres (1808) e
dos relevos em mármore de um sarcófago do séc. III DC,
representado Édipo abandonado no Monte Citeron e Édipo matando
Laio. O que me chamou a atenção para a sua leitura deste herói
tebano foi, contudo, sua frase de abertura: Perhaps one of the most misunderstood
figures in all of mythology. “Talvez uma das figuras mais mal compreendidas
em toda a mitologia”. Ora, este “misunderstood”, pretérito de “misundestanding”,
tem o sentido de ‘má compreensão’, de ‘má interpretação’,
de ‘equívoco’, correlato da forma transitiva “mistake” que também
tem o sentido de ‘compreender ou interpretar mal’ e ‘enganar-se a respeito
de’. Quer dizer, Eric Flaum, mesmo em sua descrição um tanto
ingênua detecta, ab ovo, um engano. Isto sem mencionar o to
lie – deitar/mentir – de Jocasta.
Em todo o caso, penso que poderíamos
perguntar-nos: onde começa o engano de Édipo? – Com o pressuposto
de que o destino está escrito nas entranhas da terra e pode ser lido
pela pitonisa de plantão? Quando o pai engana a mãe para proteger
a si mesmo da morte (ou para esconder seu interesse homossexual)? Quando
a mãe engana o marido para roubar-lhe um filho? Lembram que Jocasta
ansiava por filhos; a curta relação que teve com Édipo
– o tempo da solução de um enigma – deu-lhe quatro filhos:
Etéocles, Polinices, Ismene e Antígona, todos de trágico
destino. A resposta é difícil! Mais fácil é depreender
que um engano leva a outro!
Para falar do engano, à propósito,
os franceses usam, além de tromperie, fourberie, erreur
e méprise, o mot “illusion”; e em alemão,
para dizer ‘ilusão’, usa-se "trug’bild", cujo radical “trug”
significa ‘engano’. E o que me parece importante, é que "trug’bild"
também se usa para dizer ‘fantasma’.
E agora poderiam perguntar-me: você
estará querendo dizer com isto que é o fantasma que leva ao
engano? – A questão me parece importante, de modo que este é
um argumento para não respondê-la depressa demais.
Édipo foge de Corinto porque
não quer matar seu pai e na fuga encontra aquilo de que fugia. A pergunta
que aqui se impõe é a seguinte: Édipo fugia da profecia
ou da culpa que sentia pelo desejo de matar o pai? Freud diz que “matar
o próprio pai ou abster-se de matá-lo não é, realmente,
a coisa decisiva. Em ambos os casos, todos estão fadados a sentir
culpa, porque o sentimento de culpa é uma expressão tanto do
conflito devido à ambivalência, quanto da eterna luta entre
Eros e a pulsão de destruição ou morte”. – Quer dizer:
outra vez o engano! Édipo não quer saber o que se passa consigo,
preferindo considerar-se um elemento da natureza a analisar-se, que dizer,
a separar-se dela. Não reconhece que o significado da evolução
da civilização consiste na luta entre a pulsão de vida
e a de morte. Freud nos diz que “nesta luta consiste essencialmente toda
a vida e, portanto, a evolução da civilização
pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela
vida” e ele acrescenta em uma nota de rodapé: “uma luta pela
vida sob a forma que esta estava fadada a assumir após um certo acontecimento
que ainda resta a ser descoberto”. Quer dizer que quando Freud fala de evolução
da civilização, ele está falando de uma espécie
de domesticação das pulsões.
Mas vejamos outro engano: Flaum parece
localizar a caverna da Esfinge em Cadmo. Se Ingres tivesse esta informação,
ele certamente teria interpretado Monte Cadmo, pois sua tela não deixa
dúvidas quanto a presença de um monte. Cadmo, em todo o caso,
não podemos deixar de mencionar, é o nome do fundador de Tebas,
na Beócia. Cadmo é o pai de Tebas, e entre suas aventuras singulares
e extraordinárias conta-se que foi ele quem levou a arte de escrever
da Fenícia para a Grécia. A arte de riscar? De arriscar?
Observem o quadro de Ingres: no canto
inferior esquerdo, logo abaixo da assinatura do autor, e da data, gravados
em uma pedra, vemos, da esquerda para a direita, a sola de um
pé,uma ossada que parece ser parte das costelas de um homem e, em
seguida, um crânio... humano certamente! No canto inferior direito
vemos, ao longe e abaixo, a cidade de Tebas e, em um plano intermediário,
a figura apavorada de um tebano. Observem a cara do tebano, misto de espanto
e pavor, com todos os músculos do corpo retesados, embora só
o vejamos da metade das pernas para cima, quer dizer que os pés estão
ocultos; observem o contraste deste corpo com o de Édipo, em primeiro
plano, com seus músculos completamente relaxados... Ele não
se apoia nas lanças que carrega, ao contrário, seu corpo serve
de apoio para as lanças que neste momento parecem não ter nenhuma
função bélica. Seu corpo e sua atitude contrastam mesmo
com o da Esfinge que mantém a expressão facial e os músculos
tensos, mesmo embora erga sua pata leonina como um cãozinho que pede
atenção.
A expressão do tebano que testemunha
a cena é de apavoramento! Digo testemunha porque muito provavelmente
é ele quem vai, depois, como um arauto, anunciar em Tebas a destruição
do terrível monstro. E sua expressão apavorada deve querer dizer
algo assim como: “Por Zeus e por todos os deuses do Olimpo, este cara não
sabe onde está se metendo! Esta fera vai comê-lo!” A Esfinge
por sua vez parece que já não agüentava a crassa ignorância
dos tebanos – a sola do pé encarnado que aparece para fora do buraco
parece dizer que ela, a Esfinge, já não é a mesma, já
não lambe os ossos com a mesma satisfação de antes;
sua mãozinha erguida, como quem pede calma a Édipo, parece
autorizar esta leitura. E quando ele dá sua resposta, a Esfinge a
aceita (perplexa?), ou finge aceitá-la dando-se por vencida e jogando-se
pelo precipício abaixo. Quero supor que a presença do precipício
é uma maneira de dizer que a Esfinge se precipitou, abismada!;
dito de outro modo, uma metáfora para falar do engano de Édipo.
Como já disse em outro trabalho, o engano de Édipo consiste
em confundir o universal com o particular. O que está para todos,
está também para cada um, é verdade, e é até
aqui que vai Édipo; o que lhe escapa é que o que está
para todos está para cada um de um modo particular.
Toda esta precipitação...
– na leitura do oráculo, na fuga de Corinto, na luta na encruzilhada
de Megas, na interpretação de um universal quando deveria estar
um particular – leva a pensar na manutenção de um engano. Na
medida em que Édipo se recusa a analisar a conjunção
entre o seu supereu – vale dizer entre a introjeção da agressividade
que o põe em fuga – e seu ideal, na medida em que se recusa a analisar
o romance familiar no qual está envolvido, ele contribui para a fixação
do engano. E em Édipo poderíamos pensar em um supereu do tipo
medusante, conforme a acepção de A. Didier-Weill, um supereu
medusante confirmado pela cegueira posterior.
E a formação dos analistas?
Que tem a ver com isso?
Hoje em dia se vê cada vez mais
a presença de clínicas dedicadas ao “atendimento psicanalítico
de pessoas carentes”. Sabem que a expressão não é minha.
Foram aparecendo e se proliferando. Justificam seu baixo custo – quando existe
um custo – pelo atendimento de psicoterapeutas, ou mesmo analistas, em formação.
Isto quer dizer que os responsáveis por estas formações
consideram esta prática necessária. E a prática é
mesmo necessária! Estou completamente de acordo, embora tenhamos que
fazer uma ressalva: o ensino feito deste modo não terá condições
de incluir um capítulo do tipo “honorários”, a menos que, justamente,
esta parte seja considerada exclusivamente teórica ou que o aprendiz
permaneça o resto da vida tratando de pessoas carentes, as quais estarão
definidas desde logo pela perspectiva das possibilidades pecuniárias.
Como corolário, o conceito de carência, de falta, por extensão
o de falo e de significante terão de ser considerados, no melhor dos
casos, tão somente a vol d’oiseau, porque considerados em sua
pertinência própria levarão o projeto por água
a baixo. E isto tudo sem mencionar as conseqüências éticas,
a importância da diferença entre os conceitos de palavra plena
e palavra vazia, além da importância da transferência como
condição para o surgimento do inconsciente.
A aproximação disso com
Édipo é que, tal como o herói tebano, estes “analistas”
pensam que se aprende psicanálise no corpo do outro, sem distinguir
entre o Outro maiúsculo e o outro minúsculo. Quer
dizer, a especificidade da psicanálise não está aí
tomada em consideração.
Quando se segue por este caminho, confunde-se
a prática médica com a psicanalítica, pois na medicina
é assim que se aprende, in altero, no corpo do outro, enquanto
que na psicanálise o aprendizado se dá in loco, no próprio
corpo. Uma coisa é dizer que o sujeito apreende sua sexualidade sobre
o corpo do Outro, sobre o corpo da mãe, mas a repetição
que se dá na análise é da ordem da repetição
com diferença, ao estilo kierkegaardiano, possibilitado pela transferência.
É a partir do próprio corpo que se pode chegar ao corpo do
Outro maiúsculo, enquanto desejante.
Historicamente, este engano tem sido atribuído
à introdução da psicanálise em nosso meio através
da psiquiatria, como uma ferramenta a mais à disposição
do médico comprometido hipocraticamente com a cura. E isto se pode
desculpar, pois afinal se tratava dos primórdios. Quando o Brasil começou
a se interessar pela psicanálise Freud ainda estava escrevendo sua
obra: não tínhamos um Lacan que nos ajudasse a ver na psicanálise
uma disciplina específica.
Pode ser que hoje o modelo médico
ainda seja o imperativo, mas neste caso não se poderia pensar em algum
tipo de identificação com o perseguidor? Porque depois de Lacan
já há uma clareza bem maior quanto a especificidade da psicanálise.
E não creio que isto tenha algo
a ver com o ensino da psicanálise por parte das universidades, pois
quando Freud fala das vantagens do ensino que aí se desenvolve, não
vejo como não estar de acordo com suas palavras, apesar dos possíveis
problemas de tradução contidos no texto cuja primeira publicação
foi em romeno. Mas temos de notar que no início da parte 2 ele se pergunta
se as universidades desejam realmente atribuir algum valor à psicanálise,
e que lugar a Universidade está disposta a dar à psicanálise
em sua estrutura – um lugar independente, ou um lugar submetido a outras
disciplinas? – para, ao final, afirmar que os alunos jamais aprenderão
aí a psicanálise propriamente dita, assim como a formação
universitária não equipa o estudante de medicina para ser um
hábil cirurgião; é preciso uma formação
adicional, sob a forma de vários anos de trabalho no departamento
cirúrgico de um hospital .
Sim, o próprio Freud tinha na
cirurgia uma referência, mas lembrem que ele dizia que a psicanálise
era a cirurgia maior. Uma metáfora adequada, uma vez que se trata,
na verdade, de cortes, de cortes no discurso, mas de cortes, possibilitadores
de novas escanções.
No uso destas clínicas de atendimento
psicanalítico o que vejo é a manutenção do engano
de Édipo, quer dizer, a manutenção de um lugar que permite
ao sujeito manter-se na hegeliana alma bela, esquivando com isto sua própria
implicação particular. Nestas clínicas, não é
a terapia de grupo, mais acessível (ao preço da perda da individualidade),
que retorna?
O fundamental para a formação
do analista é a análise das formações do inconsciente
que o sujeita. A análise de controle e os estudos teóricos são
coadjuvantes logicamente necessários, e como tais não param
de se escrever. E isto tudo para que quando o analista tiver de se pronunciar,
tiver que dar seu testemunho, não fique tão apavorado como
o tebano que se identifica de modo centrífugo com Édipo, pensando
que Édipo vai ser devorado tal qual ele mesmo o seria se estivesse
em seu lugar, tão pouco para que fique nesta calma posição
de alma bela em que se coloca Édipo, sem se dar conta de que a questão
em jogo é com ele mesmo. O analista tem de saber que quando dá
seu testemunho está em jogo um ato de criação.
Freud comenta em uma nota de rodapé
que a palavra alemã para testemunha, Zeuge, deriva do verbo
zeugen, gerar, produzir. Creio que ele menciona também
nesta mesma nota que entre os hieróglifos egípcios, a testemunha
era representada por um falo. De modo que o testemunho implica na geração
de algo que é preciso sustentar, garantir, e no qual aquele que testemunha
está implicado.
E se agora voltarem a me perguntar
se é o fantasma que leva ao engano, diria que quando não se
analisa o fantasma, o risco é passar do instante de ver ao momento
de concluir obviando o momento de compreender.